quarta-feira, junho 07, 2006

Lendo os outros

Para que, pelo menos da minha parte, "não se mantenha um silêncio conivente", e porque também eu estou convencido de que não vale tudo, apesar dos ganhos que possam vir, afirmo desde já que estou completamente de acordo com o que o Paulo Gorjão, no Bloguítica e o Daniel Oliveira, do Arrastão, dizem sobre esta notícia.
De facto, o que é que disseram, sobre isto, o director da PJ, o António Cluny, do Ministério Público e, já agora, o inefável Procurador-Geral da República, Souto Moura?

Até, Ti Miguel

Cada vez mais vou encontrando aqueles que fui conhecendo ao longo da vida em situações ou acontecimentos específicos.

Há algum tempo, eram os encontros em festas, em saídas em grupo, em passeios mais ou menos longínquos. Íamos, às vezes, a alguns casamentos ou baptizados, mas de gente que estava, então, longe das nossas idades e mentalidades.

Depois, começámos a ir a alguns casamentos. Os dos nossos amigos mais chegados. Aqueles que tinham vindo a caminhar a estrada da vida em conjunto connosco. Era já como se fosse também o nosso próprio. E tínhamos as festas, agora as nossas, mais serenas e mais íntimas, porque a selecção já era feita com mais cuidado. Também já íamos a alguns funerais. Os dos nossos familiares e os dos familiares dos nossos amigos. Mas ainda não nos atingiam, porque grande era o tempo que nos separava.

Hoje, já quase só nos encontramos em funerais, os dos nossos mais chegados, ou os dos mais chegados dos nossos amigos. Mas também vamos a alguns casamentos, os dos nossos filhos ou dos filhos dos nossos amigos. Como os baptizados, é evidente. Mas também vamos a algumas festas. Pequenas e serenas, como serena já começa a ser a calma sossegada da nossa vida. E cada vez mais com menos à nossa volta. Porque ausentes em parte incerta (ou certa, talvez).

Ontem fui despedir-me de um tio da minha mulher, que se foi para parte incerta – ou certa, quase de certeza.

A montanha está mais perto. A estrada está mais larga. E mais vazia, quer-me parecer…

segunda-feira, junho 05, 2006

Até... Raul

Raúl Indipwo

Momentos íntimos

Sem tempo para caminharmos o tempo
Destemperamos a estrada com o sal da poeira
Que se levanta sob os nossos corpos em movimento

sexta-feira, junho 02, 2006

Paridade a quanto obrigas...

Mas haverá alguém que se admire com esta decisão do Presidente da República?
Já agora lembro, aqui e aqui, a posição que, então, tomei sobre a matéria.

Carta Aberta


Exmº Senhor
Dr. Marques Mendes

Tomei conhecimento, já ontem nos noticiários televisivos, mas também hoje, por exemplo
aqui, de que o Partido de que V. Exª é Presidente, apresentou, na Assembleia da República, um projecto de resolução que visa a instituição de um "dia nacional do cão".

Porque me parece que este projecto de resolução não passa de uma decisão eivada do sentimento mais discriminatório para o universo animal onde me insiro;

Porque me parece que esta intenção violará de certeza absoluta o consubstanciado na Constituição Portuguesa em vigor;

Porque desde já se pode afirmar que os animais que mais companheirismo manifestam somos nós, porque normalmente estamos em casa, não necessitando, sequer, de ir “à rua” para usarmos o WC. Somos, até, com toda a propriedade, dos animais mais higiénicos que existem;

Venho por este meio protestar veementemente contra tal proposta de resolução, atentatória dos mais legítimos e naturais direitos felinos. E, já aceites pela sociedade das nações felinas.

“Os gatos unidos nunca serão caninizados!”

Pulguinha
(Gato indignado)

quinta-feira, junho 01, 2006

Dia Mundial da Criança

Imagem: http://www.ese.ips.pt/settic/card/crianca/crianca1.htm

Retomo esta minha entrada. Neste dia em que até nos lembram que as crianças existem.

Já agora, o melhor era deixarmos que as crianças fossem, apenas, crianças. Tão-somente.

quarta-feira, maio 31, 2006

Entrada político/socialmente incorrecta (Ou: A Intolerância dos Tolerantes)

Parece que se comemora, hoje, o Dia Mundial Sem Tabaco.

Boa! Vão ser afirmadas hoje, grandes tiradas sobre a saúde pública, os malefícios do dito cujo, o incómodo que atinge toda a gente. A vergonha dos que têm de fumar o tabaco dos outros. Enfim, tudo o que se espera de gente séria e de bem. Ainda bem.

Mas cá para mim, grande negócio que se inventou para alguns encherem um pouco mais os seus já opulentos bolsos. Isto, tendo em conta algumas notícias de hoje na comunicação social, como por exemplo
esta.

Já agora, uma perguntazinha inocente: Porque é que será que o tratamento antitabágico não é gratuito para que todos dele possam usufruir? Se é uma questão de saúde pública, é uma questão de direitos básicos. Ou não?

Ah! E, já agora, como disse há uns tempos atrás, para que fique claro: sou não fumador, que já foi fumador. Não fumo há cerca de dois. Razões de coração (aberto) me obrigaram a tal. Livremente, é óbvio. Se calhar, até, sorte a minha.

terça-feira, maio 30, 2006

Lendo os outros

Interessante, mas mesmo muito interessante, o que HMémnon, nos traz no seu “Às duas por três…”. Vale a pena passar por lá e ver isto.

Como ele diz: “Notícia seria ver o Procurador-geral da República, Souto Moura, acusar um juiz desembargador do crime de corrupção".

Tristes exemplos

Triste exemplo este, que damos de nós próprios. Que raio de sociedade é esta que ainda continua indiferente (é a maneira mais “calma” que tenho em colocar a questão) a este escândalo? E a que somos, na verdade, mais indiferentes que a qualquer sinistro viário provocado por “efeitos” mais ou menos etílico?

A bem da verdade, chocamo-nos muito mais com o que se passa em qualquer desilusão “morangueira” do que com este flagelo.

A bem da verdade, também não vemos ninguém responsável interessado na qualidade de vida desta gente que, afinal, talvez sejam os menos culpados disto tudo. Tenho a certeza que estas crianças, são no fundo, os únicos inocentes no meio disto tudo.

Triste exemplo este, de facto, que damos de nós próprios. De todos, sem excepção, estejamos certos.

segunda-feira, maio 29, 2006

Lendo os outros

O combate à corrupção precisa de aliados
As agências anticorrupção e os departamentos policiais que perseguem o "crime de colarinho branco" não devem ir atrás de políticos poderosos, se não estiverem ainda preparados e se não tiverem aliados. Caso contrário, acabam "queimados". Quem o diz é Alan Doig, um académico especializado no combate à corrupção que esteve na passada semana em Lisboa, a propósito da conferência do ISCTE sobre agências anticorrupção.”
Público, 26 de Maio de 2006

Ora bolas, continuo chateado

E, ontem, lá conseguimos ficar pelo caminho. (Digo isto, porque às vezes mais parecia ser esse o objectivo cá da malta…)

Aliás, como diz o meu irmão Mbento, no seu Terra Encantada, o que mais me chateou foi o futebol que a nossa equipa praticou, foi a maneira como abordámos os jogos. E, claro, uma equipa com as aspirações que a nossa tinha, só conseguir marcar um golo depois de cerca de 280 minutos jogados, é algo que complica as coisas.

Ora bolas! Que chatice!

sexta-feira, maio 26, 2006

Vou de Fim-de-semana! Bom descanso!

Susana Martínez
Descanso
http://www.cayomecenas.com

Tudo acaba

Tudo acaba
Tudo fatalmente chega ao fim

E é nesta hora
Que curiosamente tudo se renova

Por isso o re-início
O fatal ressurgimento do ser

quinta-feira, maio 25, 2006

Boa! Já cá está!

Ora bolas, estou chateado

Ora bolas.
Estou triste pela nossa selecção de Sub-21, que hoje voltou a não conseguir ganhar. E nem um golito parece ser capaz de marcar.
Caramba, já merecíamos uma vitóriazita.
Esperemos que o próximo jogo seja "o tal" e que se fartem de marcar golos para uma vitória bem robusta.

Mas o que é que se passa no meu Timor? (2)

Na sequência da entrada anterior, creio bem que vale a pena ler o que o Paulo Gorjão, do Bloguitica, escreve (e bem) sobre a GALP e Timor-Leste.

Mas o que é que se passa no meu Timor?

E Timor-Leste lá continua a ser notícia. Pelas piores razões. Já não por causa de um conflito provocado por uma invasão externa, com os resultados que se viram, mas “tão-somente” porque no Timor, já livre, a liberdade veio afinal transformada em luta fratricida.

Não consigo compreender. Parece que as dores, o sofrimento, mortes do passado já foram apagadas na memória colectiva de um povo que continua, afinal, mártir. Nem que seja de si próprio.

E, aqui, quer-me parecer que é capaz de haver ainda alguém sem perceber muito bem o que é que significa ser e viver, hoje, em Timor. Desde a classe política à sociedade civil, destacando desde já a própria Igreja Católica. Como afirma Eduardo Dâmaso, em Editorial, no Diário de Notícias, de hoje, “Só com o que cada uma destas e de outras personagens pode fazer pelo seu próprio país Timor conseguirá sair da actual situação. Se isso não acontecer regressarão certamente os anos de chumbo. Desta vez, sem invasor, mas abrindo caminho a uma guerra sanguinária entre irmãos. Não foi para isto que tantos lutaram, durante tanto tempo, vencendo tantas trevas e com tanto sangue derramado”.

terça-feira, maio 23, 2006

Eu gostaria

Eu gostaria de ter a alma de um gorila
Vontade que irrompe livre e destemida
Num gesto súbito e furtivo de devir.

Eu gostaria de ter o coração de um rinoceronte
Força bravia que investe generosa
E acredita que a viagem é imediata

Eu gostaria de ter o olhar de uma águia
Asa aberta ao encontro do horizonte
Na perspicácia de um sinal mimetizado

Eu gostaria de ter a tua alma
O teu coração
O teu olhar

Para te amar

segunda-feira, maio 22, 2006

Dúvidas inquietas

Então não é que me querem convencer que o que é importante não é o facto dos dados estarem lá na disquete, à mão de qualquer um, mas sim que foram tornados públicos. (Ah, já sei que de leis não devo perceber patavina.)

Se calhar, enquanto andassem à “boca pequena”, enquanto fossem só do conhecimento de alguns, não fazia mal nenhum.

Curiosamente, depois de ler a entrevista do PGR do Expresso (20.05.06), fico com a sensação que já se encontrou um “bode expiatório”. Ficamos, assim, todos nós mais tranquilizados.

E, para além das presidenciais pressas, das procuradoras calmas, afinal, tudo vai decorrendo na santa paz do senhor…

sábado, maio 20, 2006

Porque hoje é Sábado

Domingo Garcia Criado
Noviazgo (Courtship)
Oil on canvas.
www.artemaya.com/

sexta-feira, maio 19, 2006

Um Ano já do Misantropo

O Misantropo Enjaulado cumpriu um ano aqui connosco, neste espaço onde a partilha sadia e fraterna acontece a maior parte das vezes. Mesmo quando não concordamos uns com os outros.

E andar aqui, para mim, é sinal de querer viver a aventura da vida. Porque a vida também é isto mesmo. Partilhar o que somos, às vezes o que não somos, até. Sem nada esperar, a não ser saber acolher o que nos enriquece o coraçãoi.

Ao Paulo Cunha Porto, que me habituei a visitar com frequência (mesmo que, às vezes, da visita não fique lá notícia), apenas quero dizer: Parabéns por este ano. Com a certeza de que cá nos vamos continuar a encontrar no próximo.

Parábola da menina boa

A Alice era uma menina muito simpática. Praticava o bem e só o bem. Não mentia, não dizia palavrões, não cometia maldades, não se portava mal. Enfim, poder-se-ia dizer que era uma menina modelo no meio onde vivia.

A Alice, de perfeita que era, não admitia que os outros, os seus colegas, os seus vizinhos, os que consigo se cruzavam, se comportassem de forma diferente. Não admitia os erros e os pecados naqueles que à sua volta gravitassem.

E assim, a Alice foi perdendo, ao longo dos dias, alguns daqueles que dizia e diziam com ela partilhar a amizade. Porque pecavam com muita facilidade. E a Alice não podia pactuar com isso.

E assim, a cada dia que passava, a Alice foi ficando com menos amigos para brincar. Curiosamente, também a Alice gostava de brincar. Muito embora reconhecesse que nem sempre gostasse das brincadeiras dos seus amigos.

E um dia, depois de umas palavras mais duras com o João, afinal o único que ainda brincava com ela, que lhe tinha chamado um nome feio no calor de uma discussão, a Alice deu por si sozinha no jardim do bairro onde morava. Não tinha mais ninguém com quem brincar. Não havia mais ninguém que quisesse escutá-la e falar com ela.

E aconteceu que a Alice, um dia, descobriu que era muito boazinha. Que praticava o bem e só o bem. Que não mentia, não dizia palavrões, não cometia maldades, não se portava mal. Que era, quiçá, uma menina modelo no meio onde morava.

Mas, curiosamente, a Alice descobriu também, um dia, que afinal estava fechada numa redoma de vidro. Estava sozinha. Sem ninguém que com ela brincasse e conversasse.

quinta-feira, maio 18, 2006

Pedra sobre pedra

Pedra sobre pedra
A construção surge viva e tenaz.

Tem na sua forma
O desejo ardente de quem ousa.

E em cada pedra
Se descobrem os elos da memória.

Sinais intemporais
De um tempo que não é tempo.

quarta-feira, maio 17, 2006

Campo Pequeno

Ontem, no espectáculo de inauguração do novo espaço do Campo Pequeno, a RTP1 trouxe-nos as palavras do grande Ary dos Santos. Gostei de voltar a ouvi-la.

Porque hoje, como ontem, a vida continua, muitas vezes, feita de máscaras e meneios, aqui deixo um excerto do poema
Tourada:

“Entram velhas doidas e turistas
entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.
(…)
Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente
que acabaram as canções.”

terça-feira, maio 16, 2006

A nossa Selecção, segundo S. Scolari

Para já, esta parece não ser a minha selecção. Não percebi as escolhas do seleccionador nacional. Ou então, percebi e não gostei.

Não vale a pena falar em nomes. Mas não posso deixar de pensar que uma grande injustiça foi cometida para com o guarda-redes do Braga, Paulo Santos. Ele que até fez, segundo creio, quase toda a fase de qualificação.

Enfim. Coisas da vida. Ficaremos à espera do que a nossa selecção vai ser capaz de fazer na Alemanha.

Por mim, desejo sinceramente que vá o mais longe possível. Por isso torcerei. A bem de todos nós.

segunda-feira, maio 15, 2006

Anúncios Paroquiais

"O torneio de basquet das paróquias continua com a partida da próxima quarta-feira à tarde: vinde animar-nos, enquanto procuramos derrotar Cristo Rei."

domingo, maio 14, 2006

Flor de Maio

Imagem: www.dee.feis.unesp.br


Soam prenhas de cor
Marés lúdicas de sonhos
Banhados pela utopia.

Época de esperança.
Inconformismo.

Tempo de vida
Tempo de partida.

E da viagem perdida
Meses de poesia.
Flor-de-Maio.

(O Jardim – IX)

sexta-feira, maio 12, 2006

Parabéns ao Poeta

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967



Em Águeda, a 12 de Maio de 1936, nasceu o poeta e político Manuel Alegre.
Na poesia, um clássico. Para mim, pelo menos.

História Egoísta

Eu acho que…
Tem piada: Achei mesmo.
Mas é só para mim!

quinta-feira, maio 11, 2006

Viagens

Há viagens que nos levam inexoravelmente
Ao encontro do que não conhecemos nem sabemos
À descoberta do permanentemente oculto e longínquo.

Porque não sabemos nem conhecemos o caminho
Há viagens que procuramos como se procura o incógnito
Sem medos nem receios, sem palavras, sem gestos.

quarta-feira, maio 10, 2006

O Código das contradições

Aí está o filme. De livro transformado em “best-seller” só se poderia esperar que alguém o trabalhasse no ecran.

Li o livro. E gostei. É uma boa história que se lê com agrado. Do seu conteúdo, apenas se poderá dizer que cada um pode acreditar no que quiser. Cada um pode pensar o que quiser sobre os grandes mistérios em que a história nos é fértil a oferecer. A mais nada se é obrigado perante esta obra. Quem quiser ir mais longe, irá seguramente por seu próprio pé e risco. Mas, sempre, com toda a liberdade. Afinal, com a liberdade com que cada um de nós foi pensado e gerado. Esta deve ser a postura daqueles que sabem olhar a vida e as coisas que a rodeiam com os olhos limpos e claros da tolerância feita experiência partilhada.

Cá por mim, gostei de passar os olhos por aquelas páginas. Soube-me bem. Mas não me feriu nem abalou nenhuma das minhas convicções sobre a vida. Dos meus dogmas, se os tenho (bem, para ser verdadeiro, assumo pelo menos um), apenas posso dizer que por cá continuam a povoar o meu espaço. E continuarão, estou certo.

Mas que me sorri, lá isso sorri (pelo menos) com uma local que li na Revista Única, do Expresso (06.05.06). Para que conste, dizia assim:

“BOICOTE – Do Vaticano ao filme “O Código de Da Vinci”, adaptado por Ron Haward a partir do livro de Dan Brown, que estreia na Europa no próximo dia 18. Ângelo Amato, Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, instou os católicos a mobilizarem-se na rua contra a apresentação do filme.”

Apenas como comentário isto: Que grande publicidade o Vaticano está a fazer ao filme. E de borla, que é mais incrível!

terça-feira, maio 09, 2006

Tens palavras mansas

Tens palavras mansas
Na tua voz insinuante.
Usas a maneira esquiva
Dos que fingem
E fingindo abafam
O ar que nos rodeia.

Usas a palavra fácil
Que adormece e inebria.
Tens sorrisos enigmáticos
Que abatem a alegria
E a subjugam.

Vestes a roupa vistosa
Dos fariseus de hoje.
Tu és o exterior
Do vazio, da tumba
Que escurece a noite.

Em ti não existe
A criança que é o homem.
Calaste o gesto infantil
Da esperança que há em nós.
És o censor gratuito
Que corta a criação.

Na tua casa de fachadas
Luminosas e grandiosas
Eu não posso coabitar.
Prefiro as valas comuns
Onde ontem hoje e sempre
Flores e frutos desabrocham.

segunda-feira, maio 08, 2006

Estados de alma


Como podemos confiar em alguém, se em nós próprios não confiamos?

domingo, maio 07, 2006

Penitência a quanto obrigas

Hoje, pecador confesso, cumpri a minha penitência: vi, na televisão, o meu Benfica alcançar um resultado “especial” em Paços de Ferreira.

Para já, os meus parabéns ao Paços de Ferreira por ter conseguido a manutenção na I Liga. Aliás, de toda a justiça, pois só ele quis ganhar hoje. Aos que descem, Guimarães e Rio Ave, "Boa Viagem". Do Belenenses tenho pena, porque o meu pai lá ficou triste...

sexta-feira, maio 05, 2006

As “gordas” do Independente

“Mário Lino o iberista confesso”
Independente, 5 de Maio de 2006 (1ª Página)

G’anda notícia.
Se calhar, se fossemos ver bem a coisa, se a honestidade viesse bem ao de cima, aqui neste cantinho à beira mar plantado, não seria ele, porventura, o único.

As grandes notícias do 24 Horas

“Pedro Ramos e Ramos e a namorada foram fazer testes à SIDA para terem sexo sem preservativo.”
24 Horas, 5 de Maio de 2006 (1ª Página)

quinta-feira, maio 04, 2006

Toronto

Era Toronto a cidade dos sonhos
Diziam-me ao ouvido
Seguros da minha crença
E eu ouvia
E sorria

Era Toronto a cidade das luzes
Que ofuscavam olhares perdidos
Era a cidade dos mil sóis
De noites de luas fingidas
E eu entendia

Disseram-me de Toronto a grandeza
E a facilidade das escadas da vida
Certos do meu caminhar mecânico
E eu olhava
E sorria

Mas Toronto foi a noite
Dos dias que lá quis viver
De amigos me apresentaram espinhos
Que me sugaram e secaram
E eu esquecia

Mas Toronto foste sobretudo tu
Que partiste um dia à aventura
Com olhos de sonho ainda imberbe
E da esperança lavraste o desespero
E do desespero construíste a raiva
E eu ouvia

E Toronto foi um dia partida
No regresso de uma viagem interrompida
Do riso fizeste silêncio trevas
E das trevas em ti penetraste
E eu sentia

Em Toronto quiseram meus dias
E minhas noites
Tentaram-me
Na minha fuga fizeste a tua paragem
E eles ganharam

Apenas esqueceram
Que eu sorria

quarta-feira, maio 03, 2006

Dúvidas existenciais

Com o surgimento do texto (ou dos textos) chamado de Evangelho de Judas, muita espuma pairou no ar, muita água se agitou por esse mundo fora, muita controversa se manifestou. Esta notícia, como outras ao longo dos tempos, vêm sempre agitar os mares da certeza feita facto, as ondas da verdade feita sem discussão, as convicções assumidas sem hesitação.

Cá para mim, personagem de erros bastantes e dúvidas eternas e infinitas, estas novas não me vieram perturbar na minha caminhada por esta estrada que leva à montanha das neves eternas. Talvez porque de dogmas apenas o que sou, de onde vim e para onde vou. Para já é o suficiente. E já não é pouco.

Cá para mim e para já, apenas uma questão ainda está a caminhar ao meu lado: Não me digam que, em toda a História da Humanidade, apenas um homem nasceu condenado à partida para todo o sempre?

terça-feira, maio 02, 2006

Ainda e sempre a palavra

Ainda e sempre
A Palavra.

Numa flor que desabrocha
Num fruto que amadurece
A força da Palavra.

Num rio que viaja
Num mar de ondas espraiantes
A perseverança da Palavra.

Numa criança que sorri
Numa mulher de esperança
A poesia da Palavra.

Ainda e sempre
A Palavra.

Num homem que se levanta
Num grupo que avança
A voz da Palavra.

Na minha pena que grita
Ainda e sempre
A Palavra.

sexta-feira, abril 28, 2006

Timor-Leste: A dor continua

Fiquei triste ao ler isto, isto e isto. Estive em Timor-Leste já por duas vezes. Lá longe, onde o mar se esquece no tempo, me apaixonei por aquele povo que, ao longo de muitos anos sofreu na pele uma ocupação selvagem. E durante muito tempo, também eu chorava com a dor dos meus irmãos timorenses.

Por isso, fiquei triste. Porque cá para mim, Timor já sofreu demais…

Privilégios...

Como o Paulo Gorjão, do Bloguitica, também eu apenas posso dizer: “Já cá faltava esta.”

Vital Moreira (
Causa Nossa) pode dizer muitas coisas, pode até ter razão em muitas outras. Mas não deveria falar por falar. É que já agora, porque é que não vai ver, a norte do Mondego, como é que são as portagens das pontes (e só no Porto há várias).

Privilégios lisboetas!... De facto, deve estar a brincar connosco…

Gente de Paz (IV)

Há gente
Gente pequena
Quase sem forças para avançar
Mas que continua
E leva consigo
A alegria de se saber
Gente de Paz

quinta-feira, abril 27, 2006

Gente de Paz (III)

Há gente que se mostra
Em salões de escribas e fariseus
E cumpre aquilo que está na lei e se contenta

Há gente séria e sensata
Que sabe o que se passa e faz discursos
E por vezes manda e governa e faz leis e descansa

Há gente que fala de paz
E por isso se arma até aos dentes
Demonstrando a sua força e se acha justo

E há gente que se esconde
No meio de doentes de tristes de desiludidos
E vai mais além das normas porque se sente inquieto

E há gente nova e irreverente
Que se mexe e remexe e não usa palavras
Porque não tem tempo a perder e tem muito por andar

E há gente que fala de guerra
Da guerra do Amor que urge vencer
E se acha sem forças mas continua sem saber o depois

quarta-feira, abril 26, 2006

Foi o Presidente da República que o disse?

“Não é moralmente legítimo pedir mais sacrifícios a quem viveu uma vida inteira de privação”
Do discurso do Presidente da República, Prof. Cavaco Silva
Assembleia da República
25 de Abril de 2006

Rescisões na função pública?

Embora não concorde com tudo o que o homem disse aqui, nomeadamente na parte em que se refere aos “transportes de Lisboa e do Porto, bem como a rede de ensino pública pré-escolar e os equipamentos públicos de apoio à terceira idade “, em que defende a sua passagem para o sector privado, até achei piada ao que diz sobre a função pública.

Rescisões amigáveis? Vamos lá: sempre gostaria de saber o seu entendimento por inteiro. É que talvez o convidasse a patrocinar o meu processo. Gostei. O homem promete.

Quer-me cá parecer que o Sócrates pode continuar a ficar descansado…

terça-feira, abril 25, 2006

25 de Abril


Embora muitos já tenham esquecido;
Embora muitos já tenham perdido o sentido;
Embora muitos já não estejam com vontade;
Embora muitos o não tivessem conhecido;
Embora muitos já não saibam o seu nome;

E mesmo embora alguns até já tenham chegado
à fase da própria negação;

Cá por mim quero gritar bem alto
que valeu a pena aquela madrugada com outro sabor.
Que valeu a pena aquele dia
que de novo nos fez experimentar o que não sabíamos.

Apesar de tudo.
Apesar de todos os erros cometidos
(e que continuaremos a cometer).
Apesar dos nossos enganos e desilusões.
Apesar de nós próprios, até.

Por isso sabe bem re-descobrir e tornar a sentir
o sabor, o calor, a alegria do 25 de Abril de 1974.


(Já agora: que bem que me soube o Zeca, ontem trazido até nós – embora a horas tardias – pela RTP1)

segunda-feira, abril 24, 2006

Gente de Paz (II)

Há gente que dorme
Em camas largas e brancas
E que sonha alvoradas de sossego

Há gente que acorda
E tem o seu café com leite fumegante
E o pão barrado de quente

Há gente que passeia
Por largas alamedas trabalhadas
E se senta em esplanadas polidas

Mas há gente que acorda
E não sabe como vai poder
Olhar os seus com olhos sem leite

Mas há gente que não dorme
Porque o tecto que o devia proteger
Foi um sonho que não passou de miragem

Mas há gente que não ri
E deixa escapar uma lágrima
Sobre a criança faminta e cheia de frio

Mas há gente que se cansa
Da sua luta de dias incertos
E desespera de raiva incontrolada

Mas há gente que se esgota
Por caminhos esquecidos e marginais
E desabafa a revolta em espuma de sangue

De acordo e sem comentários

“O mesmo governo que me quer tratar como proscrito por ser fumador, não me venha vender um casino como investimento de interesse público.”
Miguel Sousa Tavares
Expresso
, 22 de Abril de 2006

sábado, abril 22, 2006

Gente de Paz (I)

A Paz aconteceu
Porque alguém sonha novas manhãs

O sonho é sempre a loucura
Daqueles que assumem em si
A palavra Fraternidade

A Paz é possível
Mesmo se o homem possuir
Ânsias de poder ou de glória
E se esquecer
Que a vida depende do seu viver

Tempos houve
Que estragaram a minha rosa
Agarraram-na
Espezinharam-na
Arrancaram-na
E lançaram-na no meio de cardos

Mas quando a descobria
Já descolorida
Suja
Dorida
As minhas mãos eram suaves
Nas suas pétalas

E então ela abria-se
E renascia
No jardim do meu coração

sexta-feira, abril 21, 2006

Juro que eu não queria dizer nada!

Por norma não gosto de “bater no ceguinho”.

Mas, depois de ler isto e isto, lá que eles se põem a jeito, lá isso põem. E depois queixam-se…

quinta-feira, abril 20, 2006

Par(a)lamentos

Palavra de honra que fiquei com um sorriso nos lábios ao ler no Correio da Manhã, de hoje, esta pérola: “O líder da bancada parlamentar do PS, Alberto Martins, propôs ontem a redução de três para duas o número de sessões plenárias por semana. A proposta surgiu após a polémica ‘gazeta’ parlamentar do passado dia 12, onde 107 deputados falharam a votação no Plenário. A publicação dos nomes dos faltosos no ‘site’ do Parlamento fez ainda despontar ontem o mal-estar entre os deputados e o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama”.

Já agora, como comentário, segundo o
Diário de Notícias, também de hoje, na sua rubrica de Opinião, “a edição desta semana da Quadratura do Círculo produziu retratos cruéis dos parlamentares portugueses. Na maior parte, "são pessoas que nunca, num país civilizado, deveriam ser deputados", disse Pacheco Pereira. "Um líder de bancada parlamentar", confidenciou Lobo Xavier, "só tem confiança em 20% do seu pessoal, ou seja, naqueles que têm um mínimo de qualidade." A questão de fundo "é o facto de o sistema político ter um modo de funcionamento completamente ultrapassado", suavizou Jorge Coelho”.

Palavra de honra que ainda me resta um sorriso nos lábios…

Contradição

De súbito a contradição.

Não nego a razão
Mas desracionalizei-me
No deserto.
E construí
Uma cidade de impulsos
Onde não se teoriza
Mas se sente.

E contudo eu
Nós…

quarta-feira, abril 19, 2006

In memoriam

Foi há 500 anos. Em Lisboa, o fanatismo obscurantista de uns tantos que então julgavam ser os detentores da verdade única sobre todas as coisas, resolveram extirpar todos os que não correspondiam ao modelo aceite. Entre dois mil a quatro mil morreram, então. Eram judeus que nesta Cidade de Lisboa procuravam cumprir o seu direito à cidadania.

A memória é sempre a memória. Para todos, sem exclusões. Há quem a queira praticar e respeitar e há quem dela se afaste. Mas a memória é sempre a memória.

A injustiça é sempre a injustiça. Ao Norte e ao Sul, a Oriente e a Ocidente, a injustiça é, foi e será sempre injustiça. Não há injustiça justa e injustiça injusta.

Hoje, neste caso, estou com a
Rua da Judiaria, no respeito pelo seu direito à memória.

terça-feira, abril 18, 2006

Enganos e enganos

“O tablóide britânico The Sun anuncia hoje que nenhum dos polícias envolvidos no tiroteio no metro de Londres que levou à morte do brasileiro Jean Charles de Menezes vai ser acusado e levado a tribunal”, conforme se pode ler no Expresso On-Line.

Segundo o mesmo, “foram cometidos erros, mas eles não correspondem a um comportamento delituoso”. E mais: “Não se pode esperar, realisticamente, que sejam levados a tribunal”.

Na verdade, para alguns, os “enganos”, os “erros”, mesmo se deles resultar a perda de vidas humanas, são, afinal, meros acasos, no quotidiano da vida. É pena.

Já agora, gostaria de saber onde andam as muito habituais “consciências iluminadas” que passam a vida a debitar, às vezes até à histeria, discursos e orações em defesa da vida?…

Os representantes a que temos direito

Lê-se hoje, no Correio da Manhã, que “João Rebelo, deputado do CDS-PP, é um dos 107 parlamentares que faltaram à votação na sessão plenária da passada quarta-feira. Sem meias palavras assumiu ontem ao CM que não vai apresentar justificação. “Faltei por motivos pessoais que não se enquadram nas possibilidades previstas pelo regimento”, declarou.” Vá lá, vá lá. Haja alguém que fale uma linguagem normal. Que se assuma e não se esconda em privilégios conseguidos à custa dos outros. Honra lhe seja feita!

Já agora, segundo o
Diário de Notícias, “O PS deverá decidir hoje algumas iniciativas no sentido de alterar o sistema de controlo das faltas dos deputados, na reunião da direcção da bancada parlamentar.” Cá para mim, vindo de quem vem (dos próprios deputados, eles mesmos) mais parece que tudo não passarão de desculpas de mau pagador. De consciências mal sossegadas, que de sossego apenas desejam que não se fale delas.

Curiosamente, para o PSD, "os deputados têm de ser adultos no cumprimentos dos seus deveres, mas a avaliação cabe ao eleitorado. Assim, e para o futuro, a receita é "ter mais algum cuidado" na gestão das presenças, mas sem recurso a "soluções contra-natura".

Enfim, quer me cá parecer que o melhor é nem dizer nada. É que o prémio que ganharam todos estes ilustres membros do segundo órgão de soberania foi o apenas terem começado a semana hoje, Terça-feira. Nós, restantes mortais, começámos ontem…

No fundo, se calhar, todos nós até temos um pouquinho de culpa. Afinal, não teremos sido nós quem escolheu este Parlamento? E deixemo-nos de desculpas farisaicas do género “Eu cá não tive culpa. Nem votei sequer.” Esses, se calhar, nem respeito merecem…

segunda-feira, abril 17, 2006

Foi bom

E pronto! Cá estamos de novo.
Mas lá que soube bem, lá isso soube.
Aqui andei – e quanto o precisava fazer. Mas também corri. Duzentos metros, mais ou menos, que isto de esforços pesados já não é para mim. Mas deu para perceber as saudades das corridas e dos jogos em que a velocidade também conta.
Aqui li e reflecti – e bem necessitado estava. Sobre tudo. Sobre mim, sobretudo.
Aqui vivi a família. Às vezes só nos apercebemos destes “pormenores” quando sentimos a falta. A falta desse “pormenor”. Mas, já agora, e cá por mim, diria antes: desse “pormaior”.
Ámen!

quinta-feira, abril 13, 2006

Páscoa Feliz

Salvador Dalí
Cristo Crucificado
Pintura (1904-1989)

Semana Santa (II)

El Greco
Cristo en la Cruz
1590
La Pinacoteca de la Pontificia Universidad Católica Madre y Maestra

quarta-feira, abril 12, 2006

Semana Santa

Eu, pecador, me confesso.
Que o que sou
Nada mais é que o homem
Errante nesta terra bravia e selvagem.
Que o que sou
Nada mais é que o desejo
De ser outro, afinal, mas igual no ser.

Eu, pecador, me confesso.
Mas, onde se descobre o meu pecado,
Talvez esteja, afinal, o mesmo ser
Capaz de querer a tranquila razão
Onde a razão tempestuosa se manifesta.

Eu, pecador, me confesso.
Mas ao confessar o meu pecado
Nada mais faço e quero
Que poder afirmar para todo o sempre
Que humano me fizeram
E humano me continuo a descobrir.

terça-feira, abril 11, 2006

É da época

Não sei porquê, mas nesta semana vieram-me à memória outros tempos, outros locais, outras gentes. Mas sempre os tempos, os locais, as gentes que ficaram bem gravadas no mais dentro de mim próprio. E que, com as suas (nossas) vivências deixaram marcas bem profundas na minha história, na minha maneira de ser, na forma como tenho encarado as coisas da vida.

Como bem me lembro das aprendizagens, da vivacidade, das descobertas, das correrias das ruas dos Olivais. E também dos amores e dos desamores, das alegrias e das tristezas, dos combates, das lutas e das reconciliações. As saudades que já senti, meu Deus!

E que dizer dos princípios, dos inícios, dos primeiros passos dos campos, verdes ainda, de Chelas. Os braços abertos, sem mais que sentimento como posse, as palavras primeiras que como inéditas se transformaram em projecto, pensado e tentado. E os encontros ao redor de uma chávena de chá, que animavam o nosso estar e permanecer. As saudades que eu já senti, meu Deus!

Não sei porquê, mas nesta semana vieram-me à memória outros tempos, outros locais, outras gentes. Talvez seja do espírito desta semana.

segunda-feira, abril 10, 2006

Busco a Luz

Ruas desertas
Cidades áridas
Esquecido o homem

Eu sou o último
Dos que esperam.
Sou o que resta
Dos que retidos
Ficaram aqui

Busco a luz
Por entre trevas
Anónimas
Estrela paralisada
Por gestos inúteis.

Procuro a saída
Por entre portas fechadas
Que tento abrir
E descubro
A tua palavra
Retida em bocas
Paralíticas de medo.

(Teorema, Dezembro 2003)

sexta-feira, abril 07, 2006

Bom Fim-de-Semana

Mariano Moré
Mercado de Quirós

Ti João

O Ti João é o meu vizinho de baixo. É assim que o tratamos carinhosamente, eu e o meu amigo Tó, afinal também ele meu vizinho, mas lá mais acima.

O Ti João passava agora os seus sessenta e tal anos entre a casa, a pequena horta que ainda vai mantendo com o desvelo e o orgulho possíveis e o café onde cultiva alguns amigos.

O Ti João lá ia passando os dias calmo e sereno como calmos e serenos deveriam ser todos os tempos daqueles que já vão mais acima na montanha que é a vida. Mas, apesar da calma que teimosamente insistia em cultivar, o Ti João já se cansava muito. Demais para o que esperava ser o seu normal. E isso trazia-o há algum tempo já inquieto.

Um dia, há pouco tempo, um dia igual a tantos outros, cansado mas calmo, numa pergunta indiscreta ao médico a quem se queixava do coração pesado, ficou a saber o que temia mas não sabia. E do saber a Santa Marta foi um momento breve, de espera inquieta. E da espera ao bloco foi um saber e sentir nova válvula e melhor desobstrução de artérias de trânsito bem congestionado.

Um dia destes estive lá em casa. Sentado à janela do quarto, agarrava-se ao som e à luz lá de fora. Era o contacto com a rua que não queria perder, já que o corpo ainda sentia a fraqueza que lhe tolhia os movimentos.

Olhei-lhe o peito e gostei de ver a costura ainda com metade dos agrafos. Mas bem seca e limpa. E o sorriso que lhe descobri no rosto pareceu-me o meu há ano e meio.

Quando me despedi, ainda o ouvi dizer: “No Sábado, vou à horta ver como estão as verduras. A filhota leva-me no carro.”

E não é que me parecia que era uma criança bem feliz a falar, aquele que me acenava na despedida?

quinta-feira, abril 06, 2006

Até os deuses ficaram tristes

Foto: www.clubenavalpovoense.com


Estou triste. Hoje acordei como me deitei. Com um travo amargo na boca. Apetecia-me tanto ter tido ontem uma alegriazita e, afinal, os deuses esqueceram-se de mim.

Aliás basta ver o dia de hoje para percebermos que também os deuses ficaram tristes e ainda estão a chorar.

quarta-feira, abril 05, 2006

E porque não... acreditar?

Palavra de honra, se não gostaria de ter, hoje, uma alegriazinha.
E se acontecesse lá para as 21.45 horas, então era mesmo um delírio.

Mas lá que gostaria de ter uma alegriazinha, hoje...

Uma pequena linha

Era uma vez uma pequena linha
Que se empinava sorrateiramente
Por cima de um papel ainda virgem

E essa linha sabia bem
O quanto o vazio do papel
Poderia ser o vazio
Da sua própria vida

terça-feira, abril 04, 2006

Há festas e festas

Uma festa só é festa
Se soubermos conjugar
O verbo partilhar

Uma festa só é festa
Se soubermos percorrer
A estrada da alegria

Uma festa só é festa
Quando somos

segunda-feira, abril 03, 2006

Fama a quanto obrigas

Muito se tem ultimamente falado, sobretudo na comunicação social, sobre a polémica que tem envolvido Margarida Rebelo Pinto, a sua editora e João Pedro George e o seu livro “Couves & Alforrecas, Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto”.

Cá por mim: a quem estiver interessado, nomeadamente à editora de MRP, e já agora à própria também, quero comunicar que tenciono escrever um livro sobre a forma de escrever de alguns escritores, nomeadamente MRP, que terá o título “Brócolos & Carapaus”.

Será uma crítica literária à escrita de alguns escritores, nomeadamente MRP, e começará a ser escrito quando a editora de MRP avançar com uma providência cautelar.

É que, simples e mero mortal, também eu tenho direito à publicidade mais eficaz.

sexta-feira, março 31, 2006

Sexta-feira. Boa!

FRANCISCO RODRIGUEZ
EL DESCANSO
112 X 60,5 cm

Passo a Passo

Passo a passo
Pedra a pedra
Percorremos a calçada
Do trajecto a seguir

Espaço a espaço
Rua a rua
Andamos a cidade
Da vida que sonhámos

E corremos
Os caminhos isolados
Da terra que nos viu
Nascer
E seguimos
As estradas poeirentas
Dos destinos que nos
Esperam

Caminhámos
Noite a noite
As estrelas bem alto
Guiando nossos pés

Caminhámos
Noite a noite
A lua prateada no céu
Sorrindo quando nos olhámos

(Teorema, Dezembro 2003)

quinta-feira, março 30, 2006

Paridade – Igualdade – Quotas (2)

É verdade: Em relação à postagem anterior, falta-me apenas dizer que muito da posição que assumo tem a ver com o contacto, com o convívio, com a partilha de vida, com a relação que mantenho com uma Grande Senhora que mora comigo (ou eu com ela, é uma dúvida permanente). E que, em conjunto, de igual para igual, procuramos olhar a vida à nossa volta com olhos de gente. De gente que se quer bem. Iguais na diferença, diferentes na igualdade.

Paridade – Igualdade – Quotas

Como anuncia hoje o Público, “a Assembleia da República debate hoje, na generalidade, um projecto de lei da paridade, que estabelece a obrigatoriedade de as listas de candidatos às eleições legislativas, autárquicas e europeias integrarem, no mínimo, um terço de mulheres ou homens. A proposta, de iniciativa do PS, deverá contar com a aprovação da bancada do BE e com a rejeição dos restantes partidos da oposição”.

Para já, e no que me toca, de quotas, apenas as que me comprometo a pagar nas instituições ou clubes a que me apeteceu associar. Desta, não sou aficcionado, nem me parece que venham a resolver o verdadeiro problema. Quer queiramos quer não.

Para já, nem sequer admito que me chamem nomes. Porque, para que não restem dúvidas, dentro das diversidades inerentes ao próprio ser, é minha convicção que homens e mulheres são parceiros iguais na história comum da humanidade. E pronto. Quanto a isto estamos conversados.

Quanto ao resto, bem, eu sei que quem decide quase tudo, nos variados sectores da sociedade (política, empresas, etc…) são, por norma, os homens. Porque, quase sempre, são eles que fatalmente lá estão, ou lá vão ficando. E, muitas vezes, infelizmente, não por critérios de qualidade, de competência. Muitas vezes, até, invocando a tradição. Como se não soubéssemos todos que a nossa tradição é, afinal, a de uma sociedade patriarcal, fundada na supremacia do homem (aqui no sentido restrito da palavra) sobre todas as coisas.

E, sem hipocrisias, basta olhar de frente sobre algumas realidades concretas da nossa história comum, nomeadamente o sector político e o sector religioso. Creio que não vale a pena dizer mais.

Mas, de facto, não creio que o sistema das quotas seja o “milagre” para restabelecer a ordem e a justiça nesta matéria. Porque, e esta é uma maior perversidade, quer-me cá parecer que o que afinal se procura é fazer por decreto o que não se consegue pela inteligência, pela vontade, pela livre escolha.

E nesta posição estou com
Manuela Ferreira Leite e com Odete Santos, por exemplo. E não me parece que ela seja uma mulher amordaçada, oprimida, inculta e ignorante. Muito pelo contrário.

É que às vezes, à força de tanto querermos ser democráticos, chegamos à democracia de papel. À força de tanto querermos ser igualitários, assumimos a igualdade sem vontade livre. À força de tanto querermos ser tolerantes, tornamo-nos quase intolerantes. No fundo, é a escravidão dos livres, a igualdade dos diferentes, a intolerância dos tolerantes.

-----------------------------------
Mas, que me perdoem a mordacidade: Se calhar no PS já se começa a pensar que os homens estão a definhar e por isso já estarão a garantir, para o futuro, a sua permanência nos vários órgãos do poder. Quer sejam competentes quer não. É que não se pode esquecer o maior número de mulheres nas nossas sociedades. E isto, qualquer dia, pode mesmo mudar.

quarta-feira, março 29, 2006

Três anos depois (2)

Como eu dizia aqui, lá vão três anos sobre a intervenção no Iraque. Ou para sermos mais rigorosos, sobre a guerra no Iraque. É tempo mais do que suficiente para se começarem a ir conhecendo alguns dados sobre esse acontecimento.

Curioso, no mínimo e para não dizer mais, o que veio a público agora, nomeadamente no
Expresso (27 de Março de 2006), sobre os motivos e as razões que levaram George W.Bush a lançar a ofensiva sobre aquele país.

Sabemos hoje, via New York Times, “que o Presidente norte-americano, George W. Bush, informou o primeiro-ministro britânico em 2003 que estava decidido a invadir o Iraque mesmo sem uma resolução da ONU e sem que alguma arma de destruição maciça tivesse sido encontrada”.

E sabe-se mais: “George W.Bush referiu, consequentemente, a possibilidade de provocar um confronto, sacrificando, por exemplo um avião de vigilância norte-americano, pintado com as cores da ONU, na esperança de provocar a guerra”.

Passados três anos, cá vamos continuando a não saber muito bem o que dizer sobre tudo isto tudo. Ou, se calhar, a saber muito bem o que dizer. Cá por mim, continuo a pensar que as guerras, os conflitos, são quase sempre manifestações de sangrenta e estúpida ignorância, de intolerante afirmação fanática de “fracos” que se querem transformar em “fortes”. As guerras têm sido quase sempre momentos de obscurantismo na história da nossa memória colectiva.

Mas, para que não restem dúvidas, nem me apodem de furioso extremista fanático, vamos lá a esclarecer as coisas: Palavra de honra que até nem me considero anti-americano. (Para mais, detesto os anti primários de qualquer coisa.) Tenho o maior respeito pelo povo norte-americano, pela sua história e, tirando um ou outro acontecimento deste calibre (que cabe na responsabilidade de determinadas administrações), pelo papel que tem desenvolvido ao longo da sua existência, neste mundo global em que vivemos. Muitas das vezes como suporte para a manutenção da democracia e da liberdade em locais onde elas são esquecidas.

Para além do mais, no âmbito das relações estratégicas internacionais, sou muito mais adepto das relações atlânticas, ou mais especificamente, do triângulo atlântico: Europa – América – África (sobretudo a África Lusófona). Estou convencido que será por aqui que se poderá construir um futuro mais sustentavelmente desenvolvido. E melhor para todos nós, certamente.

terça-feira, março 28, 2006

Desabafos matinais

Há quanto tempo não começava um dia assim.

A caminhada de cerca de 50 minutos foi tónico que já me faltava e me estava a sentir que a roupa estava a encolher. E como é bom andar assim na rua. Pouca gente, mas o suficiente para sentirmos que não estamos sozinhos neste espaço. E normalmente quase todos com a sábia calma dos que sentem a meta. E os outros, bem os outros, apressados, também lá iam sôfregos e agitados que os transportes por vezes são breves e apressados.

Era cedo, eu sei bem. Mas o cedo também me soube bem, apesar do tarde em que me deitei ontem. Até me parece que quando menos horas estou na cama, melhor me sabe o dia. Deve ser doença, segundo alguns amigos meus, bons amantes do quente dos lençóis.

De facto, há quanto tempo não começava um dias assim.

segunda-feira, março 27, 2006

A minha canção

A minha canção
Tem palavras com sabor
A esperança.
Tem letras que se repetem
Como o eco da liberdade.

A minha canção
Tem a melodia da certeza
Dos dias da vitória
Dos dias que cantam a alegria.

A minha canção
Quero-a liberta
De incertezas e contradições.
Da noite que não esqueço
Retenho a têmpera
Dos que não se deixaram ficar.

A minha canção
É para os que sofrem
Dias desfeitos em horas estragadas.
São os que retêm nos olhos
A maresia do desespero
E que abrem as mãos
Ao futuro incerto e esquecido.

domingo, março 26, 2006

Porque hoje é Domingo

Domingo Garcia Criado
Noviazgo (Courtship)
2000, Oil on canvas

sábado, março 25, 2006

Será que li e ouvi bem?

Homossexuais masculinos já podem dar sangue
Portugal Diário, 24 de Março de 2006
Acabei também de ver esta notícia na RTP, no seu Jornal da Tarde.

Deixem cá ver se percebi bem: Mas eles não podiam já dar sangue?
Nã! Devo estar a sonhar. Continuemos, pois, que a almofada sabe bem…

Porque hoje é Sábado

Gerardo Báez
S/Título
Técnica: Pastel y acrílico
Medidas: 96 x 66 cm
Ano: 1995

sexta-feira, março 24, 2006

A Prima Vera

Tinham-me dito que a prima Vera tinha chegado. Depois de alguns meses ausente da nossa casa, tinha vindo, finalmente, ter connosco, com toda a sua alegria e simpatia. E, como de costume, todos nós estávamos à espera das suas lembranças. Que, normalmente, eram sentidas de forma diferente por quem as recebia. Uns mais, outros menos, mas todos sempre satisfeitos.

Tinham-me dito que a prima Vera estava cá. Entre nós. E, se calhar até mesmo por isso, cá para mim até me parecia que a maioria das pessoas que conheço até andava mais bem disposta. É que a prima Vera era alguém que, normal e naturalmente, nos transmitia um sentimento de tranquila e serena alegria.

Tinham-me dito que a prima Vera já se instalara cá em casa. Pelo menos, o seu quarto já respirava vida novamente.

Tinham-me dito…

Mas, que me desculpem os arautos da notícia, cá por mim, ainda não dei pela prima. A Vera, é claro. Se calhar ainda não teve tempo de se manifestar. Se calhar porque os tempos ainda andam muito conturbados.

Mas segundo me dizem, que vem, lá isso vem.

quinta-feira, março 23, 2006

Ontem contaram-me uma história

Contaram-me ontem uma história. Uma história acerca de uma viagem. De alguém que se aventurou a partir. De alguém que não quis ficar. De alguém que não se deixou ficar preso no seu próprio casulo e resolveu rasgar a casca e sair.

Ontem contaram-me uma história. Uma história de viagem. De alguém que arriscou a partida. Mesmo se do horizonte apenas vislumbrasse o escuro com que os seus olhos estavam tapados. Mesmo se do caminho apenas vislumbrasse o difuso, a neblina, o nevoeiro.

Ontem contaram-me uma história. Uma história de viagem. De alguém que, de súbito, descobriu ao longe uma montanha. E que sentiu um impulso ardente em se aventurar na descoberta do que estava do outro lado da montanha.

Ontem contaram-me que alguém, afinal, partiu à conquista da montanha. Porque sabe, como eu o sei, que do outro lado da montanha, um novo mundo desponta.

Cá para mim, tenho a certeza que lá, no outro lado da montanha, nos vamos encontrar. Aliás, tenho cá a impressão que nesta história, nesta história de viagem, já estamos a caminhar juntos o caminho.

Boa viagem, meu irmão. Boa, a viagem.

quarta-feira, março 22, 2006

Tempo de inquietações

Candido Portinari
Guerra
1952-1956, óleo s/ madeira compensada
ONU - Nova Iorque – EUA

Três anos depois

As guerras são o que são. E por vezes apenas é necessário que alguém dê o primeiro passo. E nem é preciso ter a certeza nos motivos, basta dizer que se está convencido. E depois arranjar outros que também “fiquem convencidos”.

Há três anos, o americano Bush convenceu-se que o Iraque estava diabolizado (e se calhar Sadam era de facto um dos seus - de Satã - discípulos) e tinha uma enormidade de armas de destruição massiva prontas a serem atiradas contra nós todos. Daí a convencer três outros companheiros de luta, foi um passo dado com a velocidade dos apressados. E lá foram todos contentes, convencidos que iriam livrar o mundo da diabólica presença de Satã, o todo poderoso. Era a luta do bem contra o mal.

Só que, depois da intervenção, digna de “Apocalipse’s Now”, vieram alguns dos “convencidos” a afirmar que, afinal, os motivos mais que evidentes, mais não eram que poeira na imaginação dos seus autores. E tudo lá continuou como coisa normal.

Agora, três anos passados, o que se poderá dizer? Cá por mim, que se calhar até sou dos “fracos e derrotistas”, na opinião do
grande amigo americano, fico-me a pensar nisto:

Três anos depois…

  • Mais de 37 mil mortos iraquianos
  • 2700 militares da coligação mortos (2311 norte-americanos)
  • Mais de 250 reféns estrangeiros e milhares de iraquianos raptados
  • Custo da guerra: 315 mil milhões de dólares (262 mil milhões de euros)
  • Apenas um em cada três iraquianos tem acesso a água potável (um em cada dois, em 2003)
  • Bagdade tem quatro horas de electricidade por dia (16 horas/dias em 2003)
  • Produção de petróleo: 1,4 mil milhões de barris/dia (2,4 mil milhões em 2003)
  • 70% de desempregados
  • Mortalidade infantil: 102 em mil nascimentos (32 em 1990)

Fonte: Expresso, 19 de Março de 2006

terça-feira, março 21, 2006

Aquele que conhece a poesia

O sussurrar do vento nas árvores
Abanando e contornando-as
Numa carícia suave e enleante,
Eis o que basta
Para aquele que experimenta a poesia.

O cálido chilrear dos pássaros
Que sobrevoam a minha aldeia
Como nuvem de alegria, de vida,
Eis o suficiente
Para aquele que sente a poesia.

O jardim pleno de verde e flores
Onde crianças correm e saltam e gritam
E mais velhos olham, no banco das memórias,
Eis o importante
Para aquele que vive a poesia.

Os ossos, rodeados de arame farpado,
O negro do ódio nos olhos do que passa,
A víbora da mentira no coração do homem,
As trevas que habitam as casas do luto,
O vazio dos que possuem a posse,
A fome dos esquálidos e dos sedentos,
Eis o que escapa da mordaça
Que tentam colocar na boca gretada e dorida
Do que sabe, do que conhece a poesia.

segunda-feira, março 20, 2006

Também eu

Já agora, em relação à entrada anterior, se calhar, também nada me poderia impedir de dizer que também eu apenas exijo que Roma me reconheça como católico – com o direito de não aceitar as normas (reformas) da Igreja, como seja o deixar a prática religiosa para quem a quiser.

Bem, de algumas “normas” que Bento XVI quer impor, é uma questão de sanidade mental (e já agora, como soi dizer-se, de caridade cristã) abster-me de mais comentários.

O tempo dos fundamentalismos

Bento XVI integra adeptos de Lefèbvre
O Papa Bento XVI decidiu integrar os seguidores de monsenhor Lefèbvre, o bispo católico excomungado por João Paulo II em 1988. (…)
Curiosa foi a declaração do bispo Fellay, sucessor de Lefèbvre, quando, em Agosto, depois de ter sido recebido pelo Papa, afirmou que não desejava para a sua instituição nenhum estatuto especial. Depois de sublinhar que apenas exigem que Roma os reconheça como católicos – como o direito de celebrar em latim, não aceitar as reformas da Igreja, como as relações ecuménicas, a possibilidade das mulheres darem a comunhão e o acesso de homens casados ao diaconado (o cargo anterior ao sacerdócio) – reafirmou: «O Vaticano II está contra a tradição da Igreja e o que a Fraternidade S. Pio X pode esperar é que a Igreja volte a ser fiel». (…)”

Expresso, 19 de Março de 2006

Por decoro, calo-me.

Mas, não deixarei de dizer que, lá como cá, os fundamentalismos (para não utilizar termos mais drásticos) aí estão para serem servidos. A bem da ordem global.

A mal de todos nós, diria eu…

sexta-feira, março 17, 2006

Os amigos que temos

É comum dizer-se que ninguém dá já nada a ninguém gratuitamente. Que a gratuitidade é uma coisa que pertence já aos idos dos tempos antigos. Mais: se olharmos à vida pública à nossa volta, o mais que ouvimos é que tudo não passa de meros negócios, em que tudo se vende e compra, como se de uma feira a nossa coisa comum (res-publica) se tivesse transformado.

O que passa nos dias que correm, é que, afinal, tudo se compra e tudo se vende. Sem pruridos, sem consciências feridas, sem escrúpulos, até. Tudo está na montra das vendas. Até a vida (que me perdoem o exagero), às vezes, parece estar em promoção nalguns escaparates.

O que se ouve é que quem promete dar alguma coisa é porque espera intransigentemente a promessa de receber logo de seguida qualquer outra coisa. Melhor e mais valiosa, de preferência. Está, pois em voga, o velho ditado que diz: “só dá um chouriço, se lhe derem um porco”.

Enfim, tudo isto é o que vemos e ouvimos por aí fora. Quer queiramos ou não; não estou, sequer, a exagerar. Chega, até, a ser quase “de bom-tom” fazer estes comentários sobre a nossa sociedade. Até porque, normalmente, estamos a falar “dos outros”. Sempre “dos outros”, não de nós próprios ou dos nossos amigos (e mesmo assim, se calhar, nem todos).

No meio de tudo isto, porque é que o meu amigo Pancrácio me fez aquela proposta? Porra, deixou-me calado. É que assim, já não são apenas “os outros”. Até me poderia ter pedido um favor, que se calhar até era capaz de lho fazer. Agora, meter “pagamento” onde apelas deveria estar amizade…

De facto, os amigos, às vezes, são mesmo os nossos amigos. E é com eles que vamos continuando a viver. Com mais ou menos brigas, é outra coisa.

quinta-feira, março 16, 2006

Desabafos benfiquistas

Hoje apetece-me falar do meu Benfica. Não sei porquê, mas pode ser que ainda esteja a lembrar-me de ontem, quando, já noite dentro, depois de um jantar bem animado, me comunicaram o resultado do jogo para a Taça.

Porque é que não fiquei admirado? Porque é que quase já estava à espera de que acontecesse exactamente o que aconteceu?

Vejamos: nos últimos jogos que vi do SLB (não contam o Porto, nem os da Liga dos Campeões), o que vi foi uma equipa que não quis ganhar um único jogo. E não me venham os mais acérrimos defensores do nosso Glorioso com as desculpas dos homens de apito na boca, ou de outras “mãos maneirinhas”, para explicar o sucedido. Porque a realidade é que a nossa equipa, nos jogos que refiro, não quis mesmo ganhar. E pronto. Deixemo-nos de tretas e desculpas esfarrapadas.

Vá lá que ainda estamos na Liga dos Campeões. E, diga-se, com mérito. Não tem culpa o SLB dos erros dos outros. Mas agora vem aí o Barcelona. E, deixem que o diga com toda a sinceridade e realismo, acho que já se cumpriu o dever. Já há honra se ficarmos pelo caminho. Mas sonhar, também não fica mal a ninguém.

Voltando ao resto, às lides internas, cá para mim, parece-me que valeria mais a pena analisar como é que se construiu esta equipa e como é que ela tem sido gerida.

É que parece que está a acontecer-nos este ano o que aconteceu com o Sporting o ano passado. Tudo poder ganhar e acabar por nada alcançar.

Mas, apesar de tudo, a certeza de que o Benfica é grande!

quarta-feira, março 15, 2006

A ler

Vale a pena ler aqui, o desabafo de Vicente Jorge Silva sobre a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social).

terça-feira, março 14, 2006

Falam de mim

Falam de mim as palavras
Frias de ausência de vida
E dizem o vazio de ideias
Das coisas que sonham para si.
Falam com voz sonora e calam
O que de mim quero para ser.

Alarves da ignorância excitam-se
Com o silêncio seguro e sereno
Dos que sentem o sabor da vida.

segunda-feira, março 13, 2006

Há dias assim

Porque é que as Segundas-feiras são, as mais das vezes, dias absolutamente para esquecer?

Será por uma questão de incoerência no ordenamento da semana? Será porque o primeiro dia da semana (dita) útil, se chamará “Segunda-feira”?

Por acaso, hoje, até saí de casa naturalmente bem disposto. Como é hábito, aliás. Apesar de ser o dia que é.

Mas ao chegar onde cheguei, onde chego todos os meus dias profissionais, lá estava o tal ambiente que nos perturba a todos e a todos provoca como que uma urticária exasperante. Por isso, o que me apetece neste momento é tão-somente deixar sair de mim o grito agreste e revoltado do animal encurralado.

Mas, já agora, tenho esperança que logo tudo não seja mais do que um sonho já ultrapassado pela sabedoria do tempo.

sábado, março 11, 2006

Porque hoje é Sábado

ROBERTO VOLTA
LA ONÍRICA
(Óleo 80x100 cm)

sexta-feira, março 10, 2006

Os palavreiros

Como eles gostam de se ouvir
E de escutar
As suas próprias palavras

Para eles, os fabricadores das palavras
O silêncio é um anátema

Usam as palavras com sofreguidão
Como se delas dependesse
A sua própria existência

quinta-feira, março 09, 2006

Mudanças em Belém

Hoje, há mudança de inquilino no Palácio de Belém. De quem entra, não me apetece, para já, dizer nada. Enfim, lá está. Chega.

Jorge Sampaio termina, assim, hoje, o seu mandato como Presidente da República Portuguesa. Mais do que procurar aqui um balanço do que foram os seus dias passados a ocupar o Palácio de Belém, fica-me apenas uma sensação estranha, uma dúvida: o que se terá passado para que a sua bem patente firmeza inicial sobre a questão do que se considerou chamar o caso do “envelope 9”, se tenha esfumado com o tempo. E que a resposta, breve como disse estar à espera, afinal tenha sido transformada em resposta sem resposta, por enquanto. Deixou, afinal, Souto Moura entregue a si próprio, quando o que se lhe pedia era que cumprisse o seu desígnio. No mínimo.

No dia da sua saída, gostaria de guardar na memória outras coisas. Mas o que parece que me vai ficar por enquanto, é esta dúvida. E não é pouco, convenhamos.

E, até tinha e tenho, de Jorge Sampaio, um sentimento bem simpático e carinhoso. Do contacto que com ele mantive, ficou-me a certeza de que é um homem bom, digno, sério, trabalhador incansável e de uma cultura ímpar. E, sobretudo, um agradável e bom companheiro para uma franca e amena conversa.

E, já agora, tenho pena de não continuar a ter em Belém um Presidente que quando nos encontrávamos me perguntava sempre novas do meu Benfica e eu lhe respondia por novas também do seu Sporting. Era, sinceramente, muito giro. E, de certo, desconcertante para muitas pessoas.

quarta-feira, março 08, 2006

Cantiga de Amor

Tu não és mulher poeta
Não és a palavra
A rima o som das idéias.
Não te enchem a cabeça
Os conceitos das sensações
Nem a teoria dos actos.
Tu não és a mulher escrita
Nem papel preenchido
Que se inunda com símbolos
Mais ou menos compreensíveis.
Tu não és a mulher canção
Não és a melodia
A pauta de música a compôr.
Não te comprimem regras
De bom senso ou de harmonia
Nem te retêem em estradas
Já definidas e bem marcadas.

Tu és o poema
Tu és a palavra liberta
Que me abunda a caneta
Com que inundo este branco
Feito filho renovado em cada dia.

(Teorema, Dezembro 2003)

(Porque hoje é, aproveito para prestar a minha muito singela homenagem)

terça-feira, março 07, 2006

Inquietações

Terríveis são os tempos
Dos que não sabem
O sabor da esperança

Temíveis os mistérios
Que se escondem esconsos
Nos caminhos do desespero

segunda-feira, março 06, 2006

Ainda há gente simpática

Li há uns dias atrás, na Focus (22 a 28 Fev 2006), que “o Primeiro Ministro Britânico, Tony Blair, classificou a prisão da base naval de Guantanamo, onde estão detidos cerca de 500 suspeitos de terrorismo, como uma anomalia”. E mais: Segundo Blair, trata-se de “uma anomalia que deverá ser resolvida”.

É boa. Com que então uma anomalia? Assim sem mais nem menos? Tão somente? Simpático, na verdade, o amigo Blair.

Já agora, quer-me cá parecer que o ilustre PM Britânico, das duas uma, como se costuma dizer: ou é ingénuo, ou anda distraído, ou ainda acredita em fadas. No máximo e para não dizer outras coisas.

sexta-feira, março 03, 2006

Só o tempo

Só o tempo de desvendar
Novos contornos da existência.
Estrofes projectadas no devir.

Só o tempo de esquecer
Novos sulcos desventrados.
Hieroglifos gravados na memória.

Só o tempo de lamentar
O espaço que permanece.
Eterna contradição do sentir.

(Teorema, Dezembro 2003)

quinta-feira, março 02, 2006

Tudo dentro da normalidade

Já leram o que vem aqui?

Quer-me cá parecer que se está a preparar o caminho para mais uma “nulidade legal”.

Ah! E mais uma vez, a culpa é de “Zhritznujdf”, um ser que habitará, porventura, o planeta Plutão. Terráqueo não será certamente. Porque por cá, tudo corre dentro da perfeita normalidade.

Dias de Cinzas

Tenho nas minhas mãos a história dos meus dias
E nos meus dedos repousam as horas e os minutos
Que se diluem na poeira de tempos ainda por descobrir.

Olho-me e as mais das vezes não me encontro
Não posso nem quero ficar retido em momentos que esqueço.

Tenho nos meus olhos a memória dos sentimentos e das sensações
E nos meus ouvidos ecoam as palavras que ficaram ainda por dizer.

Olho-me e as mais das vezes não me quero saber.
Não consigo nem procuro atingir o que me espera ainda.

A minha história é, afinal, tão-somente, a minha história.