segunda-feira, março 02, 2009

Modus Vivendi

Eram dez. Dez crianças.
Vinham sorridentes
Em alarida conversa
Mais gestos que palavras
(Será que algumas já falavam?)
Saltavam e agarravam-se
Às roupas já coçadas
E encardidas de bastas lavagens.
Corriam e fugiam uns dos outros,
Alguns ainda trôpegos da idade,
Enquanto o guarda as seguia,
Indiferente e resignado,
Pela calçada inerte
Daquela casa
Que não acolhe
Daquele asilo que não asila
Daquele espaço que não sabe
Soletrar a palavra ‘lar’.

Porquê, meu Deus?
Qual a culpa destes teus filhos?

E eu, separado delas por um vidro,
Fechado num silêncio estéril
Aguardo inquieto e adormecido
Que se iniciem outros momentos
Que de oficiais apenas revelam
A vida que julgamos perene
Sem saber que perdida já está.

3 comentários:

mundo azul disse...

O poema é muito lindo em sua triste descrição...
Sim, quase sempre ficamos olhando através dos vidros, sem aproximação...

Beijos de luz e o meu carinho!

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Mariz disse...

Zá Maria

Que belo poema, e que desolador poema - vidas continuadas, repetidas, sem esperança.
Se se soubesse os porquês...agir-se-ia de maneira forma.
Começa-se á nascença a sentir o peso do Karma...as Leis Universais são para todos igualmente; e...para serem cumpridas á risca - tenhamos 1 mês de gestação, ou 1 ano em plena vivência física... ou até 90.
O corpo físico é o garante que o projecto da alma se irá cumprir...doa a quem doer...custe o que custar - e não importa que se escrevam milhares de livros em prosa ou em forma de poema.

Não há piedade, ou compaixão sequer: "as culpas" que normalmente as pessoas atribuem, são erradas a quem se dirigem.
" cá se fazem ...cá se pagam"!
Espero que percebesse o que pretendi dizer.
Abraço meu
~Mariz

Efigênia Coutinho disse...

"Modus Vivendi"
Zé Maria, você escreve em versos uma dura e triste realidade, da qual, infelizmente não podemos abraçar ao mundo. Como você, presencio muito isso aqui neste Brasil, duma forma assustadora, onde grande parte , cabe a culpa do Governo, em planejamentos para pessoas carentes da terceira fase de vida.
Meus cumprimentos,
com admiração,
Efigênia Coutinho