quarta-feira, agosto 06, 2008
Olhares do nosso olhar
Os teus olhos
Apenas nos trouxeram
A dúvida
Os teus olhos
Apenas nos desvendaram
A incredulidade
Os teus olhos
Apenas nos revelaram
O temor
Os teus olhos
Apenas eram os teus olhos
Que nos fitaram
Se calhar sem ver
Se calhar sem nos ver
Porque os nossos
Os olhos que ainda mantemos
Parece que já esqueceram
Porque os nossos
Os olhos que ainda abrimos
Parece que já cegaram
E talvez fosse tão simples
Olhar tão simplesmente
Apenas nos trouxeram
A dúvida
Os teus olhos
Apenas nos desvendaram
A incredulidade
Os teus olhos
Apenas nos revelaram
O temor
Os teus olhos
Apenas eram os teus olhos
Que nos fitaram
Se calhar sem ver
Se calhar sem nos ver
Porque os nossos
Os olhos que ainda mantemos
Parece que já esqueceram
Porque os nossos
Os olhos que ainda abrimos
Parece que já cegaram
E talvez fosse tão simples
Olhar tão simplesmente
terça-feira, agosto 05, 2008
É bem verdade [vale a pena ler]
«(…) É que quando se descobre que gostar de um clube e raciocinar não são actividades incompatíveis, o mundo ganha logo uma outra cor.»
João Miguel Tavares
OLÁ, EU CHAMO-ME JOÃO E GOSTO DE FUTEBOL
Diário de Notícias, 05.08.2008
João Miguel Tavares
OLÁ, EU CHAMO-ME JOÃO E GOSTO DE FUTEBOL
Diário de Notícias, 05.08.2008
Quotidianos [IV]
Saiu de casa com a sensação de que o dia haveria de lhe trazer algumas surpresas. Era dia 30 deste mês, o último a que cabia consultar a conta bancária para ver se o ordenado lá havia sido depositado. Para mais, também era dia, afinal o último de cada mês, que tinha que ter a conta mais ou menos preenchida, pois o recibo da renda de casa lá caía inexoravelmente.
Imaginou a bica, tomada em pensamento, com um colega que com ela partilhava a carruagem de metro e aguentou a viagem em diálogo de colega.
Antes de subir ao segundo andar, onde todos os dias cumpria as ordens que lhe competiam numa azáfama de papéis a transportar, sentiu um calafrio no coração ao olhar o pequeno papel que acabava de sair da caixa de Multibanco, com o saldo da sua conta. Repetiu a operação, agora pedindo os movimentos dos últimos dias, mas lá não constava o que já desesperava encontrar. Neste último dia do mês, dia em que devia receber o ordenado com que quase conseguia não pagar a renda da casa, o pequeno papel apenas lhe revelava o branco da ausência devida.
Jacinta, a jovem mãe solteira, que apenas consigo própria podia contar nos dias que vivia com a filha, acabava de descobrir que tinha um longo dia à sua frente. Longo, difícil e dorido, é certo. E o primeiro telefonema que recebeu, chamada privada no telemóvel, ainda sem capacidade de gerar ele próprio chamadas, foi precisamente do banco, a questionar o negativo da conta, com a renda do empréstimo por cumprir. Ao chegar à secretária, que a esperava diariamente com a paciência da imobilidade, apenas foi capaz de se ouvir: “mas como é que vou resolver isto, hoje?”
Ia ser um longo dia, isso Jacinta sabia bem. Como outros que tentava esquecer. E, nesta manhã, de um dia que iria ser, certamente, bem longo, não era de Clara, a filha, que Jacinta agora se lembrava. O que Jacinta agora se lembrava era do contrato precário que ainda ninguém tinha tido a coragem de transformar, com toda a justiça, em situação normal de trabalho. E que por isso mesmo, às vezes, permitia que a paga pelo seu esforço, pelo seu trabalho, se atrasasse sem se saber lá muito bem porquê.
E, já agora, Jacinta sabia muito bem que, se calhar, quem não tinha feito tudo ao seu alcance para que a normalidade fosse o caso, tinha a sua normalidade perfeitamente resolvida. E, bem demais, se calhar.
Imaginou a bica, tomada em pensamento, com um colega que com ela partilhava a carruagem de metro e aguentou a viagem em diálogo de colega.
Antes de subir ao segundo andar, onde todos os dias cumpria as ordens que lhe competiam numa azáfama de papéis a transportar, sentiu um calafrio no coração ao olhar o pequeno papel que acabava de sair da caixa de Multibanco, com o saldo da sua conta. Repetiu a operação, agora pedindo os movimentos dos últimos dias, mas lá não constava o que já desesperava encontrar. Neste último dia do mês, dia em que devia receber o ordenado com que quase conseguia não pagar a renda da casa, o pequeno papel apenas lhe revelava o branco da ausência devida.
Jacinta, a jovem mãe solteira, que apenas consigo própria podia contar nos dias que vivia com a filha, acabava de descobrir que tinha um longo dia à sua frente. Longo, difícil e dorido, é certo. E o primeiro telefonema que recebeu, chamada privada no telemóvel, ainda sem capacidade de gerar ele próprio chamadas, foi precisamente do banco, a questionar o negativo da conta, com a renda do empréstimo por cumprir. Ao chegar à secretária, que a esperava diariamente com a paciência da imobilidade, apenas foi capaz de se ouvir: “mas como é que vou resolver isto, hoje?”
Ia ser um longo dia, isso Jacinta sabia bem. Como outros que tentava esquecer. E, nesta manhã, de um dia que iria ser, certamente, bem longo, não era de Clara, a filha, que Jacinta agora se lembrava. O que Jacinta agora se lembrava era do contrato precário que ainda ninguém tinha tido a coragem de transformar, com toda a justiça, em situação normal de trabalho. E que por isso mesmo, às vezes, permitia que a paga pelo seu esforço, pelo seu trabalho, se atrasasse sem se saber lá muito bem porquê.
E, já agora, Jacinta sabia muito bem que, se calhar, quem não tinha feito tudo ao seu alcance para que a normalidade fosse o caso, tinha a sua normalidade perfeitamente resolvida. E, bem demais, se calhar.
segunda-feira, agosto 04, 2008
A estrada de Jó
A estrada abriu-se à minha frente
E engoliu-me na pressa de chegar.
À minha espera no distante do caminho
A dúvida da sorte e da má sorte
De um momento que não se deseja.
Às vezes, a vida consegue lembrar-nos
Que também de Jó herdámos os dias.
A estrada abriu-se à minha frente
E nela me perdi, desencontrado de mim.
À minha frente, na lonjura da distância
Apenas a certeza de que o momento
Era o tempo dos caídos e dos abatidos.
E engoliu-me na pressa de chegar.
À minha espera no distante do caminho
A dúvida da sorte e da má sorte
De um momento que não se deseja.
Às vezes, a vida consegue lembrar-nos
Que também de Jó herdámos os dias.
A estrada abriu-se à minha frente
E nela me perdi, desencontrado de mim.
À minha frente, na lonjura da distância
Apenas a certeza de que o momento
Era o tempo dos caídos e dos abatidos.
domingo, agosto 03, 2008
sábado, agosto 02, 2008
Como um rio que não chega
Por mais que a ousadia se manifeste
E o risco seja parte integrante da viagem
Há sempre alguém que não chega
Há sempre alguém que se prolonga
Há sempre um rio nas areias do ocaso
Porque nem sempre o desejo se faz destino
Também muitas vezes a foz não é chegada
Por mais caminhos que se percorram
E a estrada se descubra permanente
Há sempre alguém que não parte
Há sempre alguém que não chega
Há sempre um mar que não se levanta
Porque nem sempre a vontade se conquista
Muitas vezes o desalento acaba por chegar
Por mais histórias que se manifestem
E o tempo permaneça perene e infinito
Há sempre alguém que se esquece
Há sempre alguém que se confunde
Há sempre uma ilha que nos espera, enfim
E o risco seja parte integrante da viagem
Há sempre alguém que não chega
Há sempre alguém que se prolonga
Há sempre um rio nas areias do ocaso
Porque nem sempre o desejo se faz destino
Também muitas vezes a foz não é chegada
Por mais caminhos que se percorram
E a estrada se descubra permanente
Há sempre alguém que não parte
Há sempre alguém que não chega
Há sempre um mar que não se levanta
Porque nem sempre a vontade se conquista
Muitas vezes o desalento acaba por chegar
Por mais histórias que se manifestem
E o tempo permaneça perene e infinito
Há sempre alguém que se esquece
Há sempre alguém que se confunde
Há sempre uma ilha que nos espera, enfim
sexta-feira, agosto 01, 2008
Há agradecimentos que não devem ficar esquecidos
Depois de ontem à noite, obrigado Tony, cá o Zeca fica agradecido...
quinta-feira, julho 31, 2008
Quotidianos [III]
Todas as tardes era costume aparecerem ali para os lados do Largo da Igreja os que, dispensados das suas ocupações de anos e anos de labuta, acabavam por poder gozar os dias com mais calma e tranquilidade. Melhor ou pior reformados, ou aposentados, como também é costume dizer hoje, ali, naquele espaço colectivo, davam asas às suas lembranças feitas memórias de dias que a maior parte das vezes até estavam já esquecidos.
E nas mesas, ali colocadas por quem, se calhar, já preparava os seus próprios dias futuros, aventuravam-se em torneios que, à semelhança de outros mais antigos, lhes acalmavam e acariciavam os egos já ressequidos.
Também ele, vindo dos encontros e desencontros que os dias proporcionam cada vez mais ao comum dos mortais, ali estava, cartas na mão, a lembrar lanças e espadas passadas, e pronto para a refrega que o haveria de saciar. Mesmo que de vitórias apenas descobrisse e sentisse as asas do sonho.
E nas mesas, ali colocadas por quem, se calhar, já preparava os seus próprios dias futuros, aventuravam-se em torneios que, à semelhança de outros mais antigos, lhes acalmavam e acariciavam os egos já ressequidos.
Também ele, vindo dos encontros e desencontros que os dias proporcionam cada vez mais ao comum dos mortais, ali estava, cartas na mão, a lembrar lanças e espadas passadas, e pronto para a refrega que o haveria de saciar. Mesmo que de vitórias apenas descobrisse e sentisse as asas do sonho.
quarta-feira, julho 30, 2008
terça-feira, julho 29, 2008
Tempo de estar
Aqui
Onde me quedo e aguardo
Espero
Aqui
Onde me descobrem apenas eu
Espero
Aqui
Onde me buscam ainda
Espero
Aqui
Neste tempo e neste espaço
Apenas há lugar para ficar
Aqui
Nesta terra e neste banco
Apenas há lugar para aguardar
Aqui
Neste momento de quase silêncio
Apenas há vontade de estar
Onde me quedo e aguardo
Espero
Aqui
Onde me descobrem apenas eu
Espero
Aqui
Onde me buscam ainda
Espero
Aqui
Neste tempo e neste espaço
Apenas há lugar para ficar
Aqui
Nesta terra e neste banco
Apenas há lugar para aguardar
Aqui
Neste momento de quase silêncio
Apenas há vontade de estar
segunda-feira, julho 28, 2008
Quotidianos [II]
De desencontros não queria que se tornasse o tempo que tinha à sua frente. Até porque talvez já fosse tempo de transformar a nostálgica apatia com que acabava por mergulhar nos dias que corriam em animado querer e desejar.
No jardim, que acabava por deixar, acabava por ficar a sua própria apatia. Acabava por ficar o que há algum tempo o queria continuar a prender e a abafar.
No jardim que acabava por deixar, ficava igualmente a espera feita vazio, ausência. Ao não conseguir aguentar o momento de ânsia, de querer e não querer, a sua amiga apenas tinha proporcionado que descobrisse um novo tempo, o tempo de ousar, o tempo de arriscar outros desejos, outros destinos, outros horizontes.
Desceu com o vagar dos que conhecem o longe e o distante a rua estreita que o haveria de levar até ao pequeno café, onde, se não todos os dias, pelo menos quase todos, costumava sentar-se e pôr em dia a leitura dos jornais. Era um hábito ganho no tempo em que era útil, quase vital, que conhecesse o que se ia passando nesta aldeia global que acaba por ser a de todos nós. Hábitos de funcionalismos, quase sempre públicos.
Passou a porta, estranhamente larga para casa tão pequena, e viu-a. Na mesa onde se costumava sentar, alguém lhe acenava e convidava a estar. Entrou ainda mais devagar, como se o tempo da demora fosse afinal o tempo do desejo. E sentou-se. Com a calma e a tranquilidade dos que conhecem o sabor da espera repleta de sensações de amena alegria.
Afinal, pensou, há desencontros que mais não são que oportunidades de novos encontros. Se calhar, a vida até acabará por ser mesmo isso, uma estrada cheia de encontros e desencontros. Que temos de percorrer. Quer queiramos, quer não.
No jardim, que acabava por deixar, acabava por ficar a sua própria apatia. Acabava por ficar o que há algum tempo o queria continuar a prender e a abafar.
No jardim que acabava por deixar, ficava igualmente a espera feita vazio, ausência. Ao não conseguir aguentar o momento de ânsia, de querer e não querer, a sua amiga apenas tinha proporcionado que descobrisse um novo tempo, o tempo de ousar, o tempo de arriscar outros desejos, outros destinos, outros horizontes.
Desceu com o vagar dos que conhecem o longe e o distante a rua estreita que o haveria de levar até ao pequeno café, onde, se não todos os dias, pelo menos quase todos, costumava sentar-se e pôr em dia a leitura dos jornais. Era um hábito ganho no tempo em que era útil, quase vital, que conhecesse o que se ia passando nesta aldeia global que acaba por ser a de todos nós. Hábitos de funcionalismos, quase sempre públicos.
Passou a porta, estranhamente larga para casa tão pequena, e viu-a. Na mesa onde se costumava sentar, alguém lhe acenava e convidava a estar. Entrou ainda mais devagar, como se o tempo da demora fosse afinal o tempo do desejo. E sentou-se. Com a calma e a tranquilidade dos que conhecem o sabor da espera repleta de sensações de amena alegria.
Afinal, pensou, há desencontros que mais não são que oportunidades de novos encontros. Se calhar, a vida até acabará por ser mesmo isso, uma estrada cheia de encontros e desencontros. Que temos de percorrer. Quer queiramos, quer não.
domingo, julho 27, 2008
“HAIKU” [XXVIII]
Boas-noites a florir,
Quando a pele duma mulher
Brilha em noite escura.
CHIYOJO (1703-1775)
Quando a pele duma mulher
Brilha em noite escura.
CHIYOJO (1703-1775)
sábado, julho 26, 2008
sexta-feira, julho 25, 2008
Quotidianos [I]
Era um dia como outro qualquer. Tinha acordado com os raios solares a despontarem ainda por entre o cinzento esbranquiçado das nuvens matinais. Como qualquer outro dia, este tinha espelhado no seu semblante a marca indelével do bem-estar e do bem sentir.
Ao sair de casa, encontrou-se, ainda que apenas por breves momentos, com um amigo de longa data. Na verdade, a vida só se pode desfrutar em plenitude se nos descobrirmos, não como seres isolados, abandonados a um qualquer acaso existencial, mas como membros agregados e afiliados de um grupo, de um corpo. De uma família, afinal. Seja ela qual for.
Demorou quase metade dessa manhã a chegar ao jardim onde alguém era suposto estar à sua espera. Mas a espera, por vezes, mais não é que momento de cansaços, de corpo e alma. E se a espera, de espera já desesperava, apenas acabou por se deixar ficar em ausência.
Por isso, quando olhou o vazio ajardinado do espaço da espera feita ausência, pressentiu a inevitabilidade do desencontro.
Não sem um sentimento de incómoda fatalidade, acabou por descobrir que, se calhar, a vida não é apenas feita de encontros e de achamentos, mas é talvez também impregnada de desencontros e de desalentos.
Ao sair de casa, encontrou-se, ainda que apenas por breves momentos, com um amigo de longa data. Na verdade, a vida só se pode desfrutar em plenitude se nos descobrirmos, não como seres isolados, abandonados a um qualquer acaso existencial, mas como membros agregados e afiliados de um grupo, de um corpo. De uma família, afinal. Seja ela qual for.
Demorou quase metade dessa manhã a chegar ao jardim onde alguém era suposto estar à sua espera. Mas a espera, por vezes, mais não é que momento de cansaços, de corpo e alma. E se a espera, de espera já desesperava, apenas acabou por se deixar ficar em ausência.
Por isso, quando olhou o vazio ajardinado do espaço da espera feita ausência, pressentiu a inevitabilidade do desencontro.
Não sem um sentimento de incómoda fatalidade, acabou por descobrir que, se calhar, a vida não é apenas feita de encontros e de achamentos, mas é talvez também impregnada de desencontros e de desalentos.
quinta-feira, julho 24, 2008
quarta-feira, julho 23, 2008
Cantiga de mal amado
Quando falas, parece que a tua palavra
Traz no seu seio aromas de “Azedas”
Bem ácidas
Quando te aproximas, parece que carregas
Nos teus alforges negros a marca
Da frustração
Quando olhas, parece que dos teus olhos
Apenas se vislumbra e distingue
A inquietação
Por mim, quando te sinto e retenho
Quando te desejo e te quero
Apenas espero
Traz no seu seio aromas de “Azedas”
Bem ácidas
Quando te aproximas, parece que carregas
Nos teus alforges negros a marca
Da frustração
Quando olhas, parece que dos teus olhos
Apenas se vislumbra e distingue
A inquietação
Por mim, quando te sinto e retenho
Quando te desejo e te quero
Apenas espero
segunda-feira, julho 21, 2008
Divagações [4]
Deixo-me cair abandonado
No sofá que sempre me acolheu
E acabo por respirar
A lenta e calma chegada
Da repousante sonolência
Doem-me os pés
Ainda quentes do caminho
E as pernas levantadas
Apressam o sangue inquieto
Revigorando o corpo sedento
À minha volta o silêncio revela-se
E o sonho descobre-se realidade
Já não sou eu que respiro
Nem os meus pés que se ouvem
Em mim, um outro manifesta-se
No sofá que sempre me acolheu
E acabo por respirar
A lenta e calma chegada
Da repousante sonolência
Doem-me os pés
Ainda quentes do caminho
E as pernas levantadas
Apressam o sangue inquieto
Revigorando o corpo sedento
À minha volta o silêncio revela-se
E o sonho descobre-se realidade
Já não sou eu que respiro
Nem os meus pés que se ouvem
Em mim, um outro manifesta-se
domingo, julho 20, 2008
Leituras [Que boas surpresas] de fim-de-semana
Amo a vida
A Vida foi-me negando
Coisas grandes, grandes lemas
E nem sempre fui feliz
Tanto “Inverno” a passar!
Mas o amor com que fiz
Mesmo as coisas pequenas
Deu-me forças para amar.
Maria Albertina Dinis Jorge
Rumos e Rimas
[Poemas, 2007]
A Vida foi-me negando
Coisas grandes, grandes lemas
E nem sempre fui feliz
Tanto “Inverno” a passar!
Mas o amor com que fiz
Mesmo as coisas pequenas
Deu-me forças para amar.
Maria Albertina Dinis Jorge
Rumos e Rimas
[Poemas, 2007]
sábado, julho 19, 2008
Dixit
«(…) A opinião sem conhecimento é frágil, e só resiste se não for escrutinada, como acontece sobretudo nas sociedades pouco desenvolvidas. Como é evidente, quando se descobre o embuste, vai-se a credibilidade e instala-se a suspeita. Ah, e nos países civilizados e nas empresas idóneas, perde-se também o "tacho". É o contrato!»
Manuel Maria Carrilho
O CONTRATO
Diário de Notícias, 19.07.2008
Manuel Maria Carrilho
O CONTRATO
Diário de Notícias, 19.07.2008
quinta-feira, julho 17, 2008
quarta-feira, julho 16, 2008
A minha vizinha Martinha
A minha vizinha Martinha já há muito tempo que andava de olho nele. Atrás das cortinas das janelas, suficientemente ralas para que a visão fosse pelo menos eficaz, ela mirava e remirava o espaço onde ele evoluía. Matreiro e sorrateiro.
É bom de dizer que a minha vizinha Martinha já só tinha de seu todo o tempo do mundo, do talvez já parco que lhe restava. E a janela, com as cortinas estrategicamente ralas, eram, afinal, uma boa parte do seu mundo. Ali se deixava ficar a olhar, a olhar. O quê, não lhe importava. Apenas olhar.
A minha vizinha Martinha, até ao momento, não tinha sido senhora dos seus doces quando os arrefecia ali no parapeito da janela, que era a sua banca para o mundo. De cada vez que lá colocava um qualquer dos seus mimos, quando se distraía, mais parecia que ali tinha colocado um par de asas que, em três tempos, se volatizavam sem rasto.
A minha vizinha Martinha estava certa de que o que se passava era tão-somente uma invasão do “amigo” que, sem vergonha, pudor ou remorso algum, ali a desafiava e quase sempre ganhava. Às tantas, a minha vizinha começava a pensar que a relação com aquele “amigo” já se estava a tornar num caso sério de gostar e bem-querer.
Um dia, daqueles que nem sequer lembramos, a minha vizinha Martinha resolveu pôr um ponto final nesta relação fenestral. E se melhor o pensou, melhor o realizou.
Nesse dia, nesse dia banal como qualquer outro, quando o “amigo”, matreiro e sorrateiro avançou para junto da janela, a das cortinas ralas, reparou que de ralas já não se vestia. Estava tão simplesmente aberta, deixando que de lá de dentro um forte aroma bem adocicado se sentisse em todo o seu esplendor.
Sorrateiro, com respeito pela novidade, saltou para o parapeito e, ó deuses, a visão era soberba. Claro, não poderia resistir. Com um salto bem felino, chegou à mesa onde o prazer se oferecia e não se fez rogado. Foi como que aceitar a ligação afectiva que lhe estava a ser oferecida.
E desde esse dia, um daqueles dias tão iguais a outros dias, a minha vizinha Martinha passou a não viver apenas com os seus pensamentos, apenas com a sua janela feita contacto com o lá fora, apenas com os seus solilóquios. Desde esse dia a minha vizinha passou a ter alguém com quem conversar. Muito embora esse alguém nem fosse capaz de dizer uma palavra sequer. Nem isso era importante. Mas lá que ela conversava, lá isso conversava. Cá para mim, até parecia que andava um pouco mais feliz.
É bom de dizer que a minha vizinha Martinha já só tinha de seu todo o tempo do mundo, do talvez já parco que lhe restava. E a janela, com as cortinas estrategicamente ralas, eram, afinal, uma boa parte do seu mundo. Ali se deixava ficar a olhar, a olhar. O quê, não lhe importava. Apenas olhar.
A minha vizinha Martinha, até ao momento, não tinha sido senhora dos seus doces quando os arrefecia ali no parapeito da janela, que era a sua banca para o mundo. De cada vez que lá colocava um qualquer dos seus mimos, quando se distraía, mais parecia que ali tinha colocado um par de asas que, em três tempos, se volatizavam sem rasto.
A minha vizinha Martinha estava certa de que o que se passava era tão-somente uma invasão do “amigo” que, sem vergonha, pudor ou remorso algum, ali a desafiava e quase sempre ganhava. Às tantas, a minha vizinha começava a pensar que a relação com aquele “amigo” já se estava a tornar num caso sério de gostar e bem-querer.
Um dia, daqueles que nem sequer lembramos, a minha vizinha Martinha resolveu pôr um ponto final nesta relação fenestral. E se melhor o pensou, melhor o realizou.
Nesse dia, nesse dia banal como qualquer outro, quando o “amigo”, matreiro e sorrateiro avançou para junto da janela, a das cortinas ralas, reparou que de ralas já não se vestia. Estava tão simplesmente aberta, deixando que de lá de dentro um forte aroma bem adocicado se sentisse em todo o seu esplendor.
Sorrateiro, com respeito pela novidade, saltou para o parapeito e, ó deuses, a visão era soberba. Claro, não poderia resistir. Com um salto bem felino, chegou à mesa onde o prazer se oferecia e não se fez rogado. Foi como que aceitar a ligação afectiva que lhe estava a ser oferecida.
E desde esse dia, um daqueles dias tão iguais a outros dias, a minha vizinha Martinha passou a não viver apenas com os seus pensamentos, apenas com a sua janela feita contacto com o lá fora, apenas com os seus solilóquios. Desde esse dia a minha vizinha passou a ter alguém com quem conversar. Muito embora esse alguém nem fosse capaz de dizer uma palavra sequer. Nem isso era importante. Mas lá que ela conversava, lá isso conversava. Cá para mim, até parecia que andava um pouco mais feliz.
segunda-feira, julho 14, 2008
Se calhar, tem toda a razão …
«(…) Porque a mim pouco me interessa quem ganha o debate. Interessa-me entender quem tem razão, quem tem melhores ideias para o país. (…)»
Henrique Monteiro
Os debates perdidos entre Sócrates e a Oposição
Expresso, 14.07.2008
Henrique Monteiro
Os debates perdidos entre Sócrates e a Oposição
Expresso, 14.07.2008
domingo, julho 13, 2008
Parabéns David! [Há 28 anos escrevi isto...]
Quid Venit
Eras, ainda, uma incógnita,
Uma incerteza, uma dúvida, talvez.
Eras do ser, ainda a primeira vez,
Do oiro, da prata, por enquanto, a pepita.
Eras o alfa de algo a iniciar,
Memória do ómega que nos espera.
Eras o centro, o âmago da cratera,
O caminho, o espaço a viajar.
Eras também o tempo já feito
De uma história por contar.
Eras, na avenida, o rumo estreito.
Hoje, és a certeza a realizar,
Nova terra de um Amor perfeito.
És o acaso que Ele quis nos ofertar.
Eras, ainda, uma incógnita,
Uma incerteza, uma dúvida, talvez.
Eras do ser, ainda a primeira vez,
Do oiro, da prata, por enquanto, a pepita.
Eras o alfa de algo a iniciar,
Memória do ómega que nos espera.
Eras o centro, o âmago da cratera,
O caminho, o espaço a viajar.
Eras também o tempo já feito
De uma história por contar.
Eras, na avenida, o rumo estreito.
Hoje, és a certeza a realizar,
Nova terra de um Amor perfeito.
És o acaso que Ele quis nos ofertar.
sábado, julho 12, 2008
Pensamentos subversivos (LXXII)
Que pena, tudo isto.
Falamos, falamos, indignamo-nos, mas depois, bem, depois, lá vamos todos nós em alegre procissão disputar umas ‘medalhitas’ para satisfação do nosso orgulhosamente pequeno ego.
Falamos, falamos, indignamo-nos, mas depois, bem, depois, lá vamos todos nós em alegre procissão disputar umas ‘medalhitas’ para satisfação do nosso orgulhosamente pequeno ego.
sexta-feira, julho 11, 2008
O meu pai fez ontem anos
Há já dois anos que os oitenta passaram. Por isso, ontem, o ar que se respirou foi o sopro do querer bem, sem mais que apenas desejar estar juntos.
Ali, naquela mesa, cheia de saborosa amizade e licorosa harmonia, celebrava-se, não o tempo já passado, gasto pela poeira dos anos, mas o tempo que se vive, mesmo sabendo que da vida quase nada se sabe, a não ser que vale a pena saboreá-la.
Ali, naquela mesa, afinal tão grande de calma e tranquila ternura, apenas se sabia que era bom estar. Era bom olhar em redor e descobrir o sorriso que só os deuses sabem oferecer.
Há já dois anos que os oitenta passaram. Ainda bem. Porque, hoje, só podemos dizer que valeu a pena o caminho percorrido. E isso não é o menos importante.
Ali, naquela mesa, cheia de saborosa amizade e licorosa harmonia, celebrava-se, não o tempo já passado, gasto pela poeira dos anos, mas o tempo que se vive, mesmo sabendo que da vida quase nada se sabe, a não ser que vale a pena saboreá-la.
Ali, naquela mesa, afinal tão grande de calma e tranquila ternura, apenas se sabia que era bom estar. Era bom olhar em redor e descobrir o sorriso que só os deuses sabem oferecer.
Há já dois anos que os oitenta passaram. Ainda bem. Porque, hoje, só podemos dizer que valeu a pena o caminho percorrido. E isso não é o menos importante.
quinta-feira, julho 10, 2008
Recomeços
Amanhã vamos fazer tudo outra vez.
De repente é como se descobrisse
Que a cada dia que passa
Um novo dia inexoravelmente se descobre.
Encontramos tempo em falta
No tempo que nos sobra sem parar.
Amanhã vamos fazer tudo outra vez.
E porque regressamos quase sempre
Ao passo primeiro do caminho percorrido
Reinventamos a cada momento
O chegar e o partir
O partir e o chegar.
De repente é como se descobrisse
Que a cada dia que passa
Um novo dia inexoravelmente se descobre.
Encontramos tempo em falta
No tempo que nos sobra sem parar.
Amanhã vamos fazer tudo outra vez.
E porque regressamos quase sempre
Ao passo primeiro do caminho percorrido
Reinventamos a cada momento
O chegar e o partir
O partir e o chegar.
quarta-feira, julho 09, 2008
Bem dito
«(…) Não interessa saber de que lado está a razão: a forma como tudo se passou feriu de morte a legitimidade do órgão. E não vale a pena carpir lágrimas de crocodilo. Para isso contribuíram clubes, associações desportivas, dirigentes, Federação, Liga e os sucessivos governos da República, já que o relevante interesse público da prática desportiva assim o exigia. (…)»
Rui Rangel
Justiça desportiva
Correio da Manhã, 09.07.2008
Rui Rangel
Justiça desportiva
Correio da Manhã, 09.07.2008
segunda-feira, julho 07, 2008
Pensamentos subversivos (LXXI)
Ele há coisas que já lá não vão com ‘apelos à correcção’.
Cá para mim, cada vez mais me parece que enquanto toda esta gente por lá andar – e sublinho toda – não se vai conseguir chegar a lado nenhum. Quer-me cá parecer cada vez mais que só quando se mudar – não o quê, mas quem – é que talvez se volte a acreditar na beleza daquilo tudo.
Cá para mim, cada vez mais me parece que enquanto toda esta gente por lá andar – e sublinho toda – não se vai conseguir chegar a lado nenhum. Quer-me cá parecer cada vez mais que só quando se mudar – não o quê, mas quem – é que talvez se volte a acreditar na beleza daquilo tudo.
domingo, julho 06, 2008
sábado, julho 05, 2008
sexta-feira, julho 04, 2008
quarta-feira, julho 02, 2008
terça-feira, julho 01, 2008
segunda-feira, junho 30, 2008
Um certo João
João vive a vida com a naturalidade daqueles que acabam por saber que a vida acaba quase sempre por ser apenas mais um dia em cima de um outro. Para ele, as horas, os dias, os meses, quiçá os anos, são apenas gotas que inundam o mar da vida.
João olha as coisas da vida como se delas apenas soubesse que ali estão. E mais não consegue entender, até porque acha que o tempo que vai gastando é afinal o tempo que tem à sua frente. Por enquanto. E isso, em vez de o perturbar, para não dizer outra coisa, parece mais que o fascina, como se deixa fascinar pelo Sol que se põe, ou pela nuvem que desenha imagens lá bem em cima.
Porque sempre quis viver a vida vivendo, João sempre se foi deixando envolver nos vários, quase muitos, projectos e ideias que permanentemente lhe iam sendo desvendados. Sempre acompanhado por outros que, como ele, gostavam de viver a vida assim, ousavam permanentemente a esperança sem desfalecimento. E acreditavam piamente que haveria de chegar um dia em que de seu haviam de chamar.
Mas como nestas coisas do tempo, o tempo não tem tempo, o próprio tempo vai caminhando a viagem intemporal. E quando se dá por ele, descobre-se que afinal o tempo não é mais que passado. Não é mais que presente. E mais não é que futuro.
Depois de ter começado mil e uma coisa, depois de ter interrompido mais de mil e uma coisa, depois até de ter recomeçado outras mais de mil e uma coisa, um dia, João deu por si como se estivesse no início de tudo. Depois de mais de mil e um recomeços, sem ter chegado a saborear sequer qualquer coisa que de concreto o deixasse ufano e orgulhoso, João apenas conseguiu descobrir que se calhar afinal a vida acaba quase sempre por ser apenas mais um dia em cima de um outro.
Ele que até passa a vida a dizer ser um sortudo da vida. Porque conhece a casa onde vive e a gente com quem partilha o tempo que teima em temperar os dias, os meses, os anos.
Por mim, estou em crer que um dia, João acabará mesmo por adormecer finalmente na praia.
João olha as coisas da vida como se delas apenas soubesse que ali estão. E mais não consegue entender, até porque acha que o tempo que vai gastando é afinal o tempo que tem à sua frente. Por enquanto. E isso, em vez de o perturbar, para não dizer outra coisa, parece mais que o fascina, como se deixa fascinar pelo Sol que se põe, ou pela nuvem que desenha imagens lá bem em cima.
Porque sempre quis viver a vida vivendo, João sempre se foi deixando envolver nos vários, quase muitos, projectos e ideias que permanentemente lhe iam sendo desvendados. Sempre acompanhado por outros que, como ele, gostavam de viver a vida assim, ousavam permanentemente a esperança sem desfalecimento. E acreditavam piamente que haveria de chegar um dia em que de seu haviam de chamar.
Mas como nestas coisas do tempo, o tempo não tem tempo, o próprio tempo vai caminhando a viagem intemporal. E quando se dá por ele, descobre-se que afinal o tempo não é mais que passado. Não é mais que presente. E mais não é que futuro.
Depois de ter começado mil e uma coisa, depois de ter interrompido mais de mil e uma coisa, depois até de ter recomeçado outras mais de mil e uma coisa, um dia, João deu por si como se estivesse no início de tudo. Depois de mais de mil e um recomeços, sem ter chegado a saborear sequer qualquer coisa que de concreto o deixasse ufano e orgulhoso, João apenas conseguiu descobrir que se calhar afinal a vida acaba quase sempre por ser apenas mais um dia em cima de um outro.
Ele que até passa a vida a dizer ser um sortudo da vida. Porque conhece a casa onde vive e a gente com quem partilha o tempo que teima em temperar os dias, os meses, os anos.
Por mim, estou em crer que um dia, João acabará mesmo por adormecer finalmente na praia.
Dixit
«(…) Creio que cada vez são mais os excluídos e menos os incluídos, se não se reformularem os mecanismos de diálogo e de concertação. Como fazê-lo? Eis um desafio. Mas não serão, certamente, aqueles que já estão instalados a dar o primeiro passo. Para esses, sejam sindicatos sejam patrões, o sistema é perfeito: o Governo finge que eles são importantes e eles fingem que estão com o Governo.»
Henrique Monteiro
Para que serve a Concertação Social?
Expresso, 30.06.2008
Henrique Monteiro
Para que serve a Concertação Social?
Expresso, 30.06.2008
sexta-feira, junho 27, 2008
quinta-feira, junho 26, 2008
Pancada primeira
Uma pancada se ouviu
Sonora e áspera
Na dissonância desregrada.
Uma pancada estridente
Na porta coberta e segura
Ousou acordar o nosso silêncio.
Uma pancada seca e grave
Arrancou das nossas gargantas
Um grito de força e querer.
Sonora e áspera
Na dissonância desregrada.
Uma pancada estridente
Na porta coberta e segura
Ousou acordar o nosso silêncio.
Uma pancada seca e grave
Arrancou das nossas gargantas
Um grito de força e querer.
terça-feira, junho 24, 2008
Até que enfim, alguém diz o que tem que ser dito
«(…) Eu gosto de acreditar que há momentos em que uma nova geração de adeptos deixa de ter paciência para os conflitos de sempre, para as guerrinhas de sempre, para as queixinhas de sempre. Eu sou do Benfica, eu adoro o Benfica, mas já não tenho mais pachorra para a velha guerra com o Porto, que dura há 20 anos. Já não tenho pachorra para as ironias de Pinto da Costa. Já não tenho pachorra para as indignações de Luís Filipe Vieira. Meus amigos: eu gosto é de bola. Se o Porto roubou, que seja punido. Mas a primeira preocupação do Benfica tem de ser as vitórias que realmente interessam - aquelas que se conseguem em 90 minutos, em cima de um relvado. Portanto, meu querido Benfica, é como se costuma dizer nas peladinhas entre amigos: cala-te e joga.»
João Miguel Tavares
MEU QUERIDO BENFICA: PORQUE NÃO TE CALAS?
Diário de Notícias, 24.06.2008
João Miguel Tavares
MEU QUERIDO BENFICA: PORQUE NÃO TE CALAS?
Diário de Notícias, 24.06.2008
segunda-feira, junho 23, 2008
Momentos íntimos
A maior parte das vezes
O difícil não são
Os muitos passos necessários
À caminhada a fazer.
Difícil, difícil,
Acaba quase sempre por ser
O primeiro passo a dar.
O difícil não são
Os muitos passos necessários
À caminhada a fazer.
Difícil, difícil,
Acaba quase sempre por ser
O primeiro passo a dar.
domingo, junho 22, 2008
Momento breve
Para além das horas
Dos dias
Dos meses
E dos anos
Há também no tempo
Um momento
Tão breve
E tão ténue
Que nos desafia
Nos questiona
Nos perturba
E nos inquieta.
É o momento
De olharmos de frente
O nosso próprio olhar.
É que à nossa frente
As mais das vezes
Apenas sabemos
O que não sabemos.
Apenas olhamos
O que não se pode ver.
Dos dias
Dos meses
E dos anos
Há também no tempo
Um momento
Tão breve
E tão ténue
Que nos desafia
Nos questiona
Nos perturba
E nos inquieta.
É o momento
De olharmos de frente
O nosso próprio olhar.
É que à nossa frente
As mais das vezes
Apenas sabemos
O que não sabemos.
Apenas olhamos
O que não se pode ver.
sábado, junho 21, 2008
quinta-feira, junho 19, 2008
Momentos íntimos
Não te vi chegar.
Nem era preciso
Saber que estavas.
Aqui, onde me descubro
Apenas te senti
E encontrei.
Nem era preciso
Saber que estavas.
Aqui, onde me descubro
Apenas te senti
E encontrei.
quarta-feira, junho 18, 2008
Divagações [3]
Tenho na minha caneta
A tinta que escorre breve
E me preenche os papéis
Com que procuro afirmar
A minha essência de vida.
A tinta que escorre breve
E me preenche os papéis
Com que procuro afirmar
A minha essência de vida.
terça-feira, junho 17, 2008
Pensamentos subversivos (LXX)
Estranho. Muito estranho, o silêncio agora de gente que antes com força se fez ouvir…
segunda-feira, junho 16, 2008
Pensamentos subversivos (LXIX)
Não. Não vou falar do treinador da nossa selecção nacional de futebol. Nem do jogo de ontem.
DI: É evidente que o que mais quero é que os nossos ganhem o Europeu!
DI: É evidente que o que mais quero é que os nossos ganhem o Europeu!
domingo, junho 15, 2008
Outras Leituras [perdidas no tempo]
Açorda à portuguesa
Pão de trigo, sem ter sombra de joio;
Azeite do melhor, de Santarém;
Alho do mais pequeno, e do saloio,
Ponha em lume brandinho e mexa bem;
Sal que não seja inglês – porque é remédio.
Toda a criança assim alimentada
É capaz de deitar abaixo um prédio
Quatro meses depois de desmamada.
Com este bom pitéu, sem refogados,
Invenção puramente lusitana,
Os ilustres varões assinalados
Passaram ‘inda além da Taprobana.
Fortes p’la açorda, demos nós aos mouros,
Como se sabe, uma fatal derrota;
E abiscoitámos majestosos louros
Para os nobres troféus de Aljubarrota.
In A Cosinheira das Cosinheiras,
Por Rosa Maria
Empresa Literária Universal, Lisboa, [Século passado]
Pão de trigo, sem ter sombra de joio;
Azeite do melhor, de Santarém;
Alho do mais pequeno, e do saloio,
Ponha em lume brandinho e mexa bem;
Sal que não seja inglês – porque é remédio.
Toda a criança assim alimentada
É capaz de deitar abaixo um prédio
Quatro meses depois de desmamada.
Com este bom pitéu, sem refogados,
Invenção puramente lusitana,
Os ilustres varões assinalados
Passaram ‘inda além da Taprobana.
Fortes p’la açorda, demos nós aos mouros,
Como se sabe, uma fatal derrota;
E abiscoitámos majestosos louros
Para os nobres troféus de Aljubarrota.
In A Cosinheira das Cosinheiras,
Por Rosa Maria
Empresa Literária Universal, Lisboa, [Século passado]
sexta-feira, junho 13, 2008
terça-feira, junho 10, 2008
Mas qual, Senhor, mas qual?
“Hoje eu tenho que sublinhar, acima de tudo, a raça, o dia da raça, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”
Público, 09.06.2008
Público, 09.06.2008
segunda-feira, junho 09, 2008
Outras leituras
«(…) De facto, para que serve uma "off-shore"? Para esconder dinheiro - nada mais. E porque se quer esconder dinheiro? Por más ou menos boas razões. As más são para ajudar governantes corruptos a roubar os respectivos países ou branquear lucros de actividades criminosas, tais como droga, contrabando de armas, de meninas do Leste ou compras e vendas de jogadores de futebol por valores diferentes dos declarados. A razão menos boa é, singelamente, para fugir ao Fisco. Parece que os muito ricos sofrem de uma síndroma incurável, que é uma natural repulsa em compartilhar parte da sua fortuna com o Estado, por via fiscal. E o Estado, compreensivo, aceita a sua repulsa de acordo com o princípio patriótico de que mais vale um rico que foge ao Fisco do que um rico que foge ao país. O "off-shore" da Madeira foi criado em obediência a esta fatalidade: "Se o não fizermos, eles põem o dinheiro no Luxemburgo ou nas ilhas Caimão". Eis porque é uma hipocrisia o Ministério Público andar agora desconfiado do "off-shore" da Madeira. Desconfiado de quê - de que ele serve para o que serve? (…)»
Miguel Sousa Tavares
Heróis do ar
Expresso, 09.06.2008
Miguel Sousa Tavares
Heróis do ar
Expresso, 09.06.2008
domingo, junho 08, 2008
Questões pertinentes
Será justa, será legítima, uma sociedade em que a coisa mais intocável, se não «sagrada», é a margem de lucro?
José Carlos de Vasconcelos
Não fechar portas
Visão, 05.06.2008
José Carlos de Vasconcelos
Não fechar portas
Visão, 05.06.2008
sábado, junho 07, 2008
sexta-feira, junho 06, 2008
Os 'enganos' do nosso tempo
Vale bem a pena ler o artigo de opinião que Boaventura de Sousa Santos nos ofereceu, ontem, na revista Visão [ainda não o descobri ‘linkado’], assim chamado: “A cultura do ludíbrio”.
Termina assim:
Termina assim:
“Para disfarçar o problema moral, os cúmplices da guerra e da destruição têm recorrido a tudo. Um comentador de direita socorreu-se recentemente da mais desconcertante justificação da guerra: se não havia ADMs [armas de destruição maciça], havia pelo menos a convicção de que elas existiam. Ora o livro de McClellan acaba de lhe retirar este argumento. De qual se socorrerá agora?
O trágico é que a ‘máquina’ de propaganda continua montada e está agora dirigida ao Irão. O seu funcionamento será mais difícil e sê-lo-á tanto mais quanto melhores condições tiverem os jornalistas para cumprir o seu Código Deontológico.”
quinta-feira, junho 05, 2008
quarta-feira, junho 04, 2008
A ler
- Os heróis do regime – Baptista-Bastos – [Diário de Notícias]
- O petróleo e o futuro do mundo – Domingos Amaral – [Diário Económico]
terça-feira, junho 03, 2008
Boa questão
E quem paga tudo isto?
Quais são as consequências práticas para um serviço do Estado ou para um ministério que aplica os dinheiros públicos à margem da lei? Como é possível que existam 1700 milhões de euros em irregularidades na Conta Geral do Estado?
Miguel Alexandre Ganhão
Correio da Manhã, 03.06.2008
Quais são as consequências práticas para um serviço do Estado ou para um ministério que aplica os dinheiros públicos à margem da lei? Como é possível que existam 1700 milhões de euros em irregularidades na Conta Geral do Estado?
Miguel Alexandre Ganhão
Correio da Manhã, 03.06.2008
segunda-feira, junho 02, 2008
domingo, junho 01, 2008
Dia Mundial da Criança [Era bom que se pensasse nisto!]
«Muitas crianças da grande Lisboa não comem jantar completo
Geralmente sentem-se felizes, gostam da escola e do bairro onde vivem. Mas quase metade (45,8 por cento) das cinco mil crianças inquiridas em sete concelhos da Grande Lisboa dizem que sentem que a família tem dificuldades financeiras.
Apesar de serem raras as que afirmam que não têm comida em casa quando têm fome (2,4 por cento), só uma pequena parcela (12 por cento) costuma fazer uma refeição completa de sopa, prato e fruta ao jantar. O que, segundo um grupo de investigadores, indicia “potenciais problemas ao nível da dieta alimentar”.
Chama-se "Um olhar sobre a pobreza infantil – Análise das condições de vida das crianças" e é um estudo de Amélia Bastos, Graça Leão Fernandes e José Passos, do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, e de Maria João Malho, do Instituto de Apoio à Criança.»
Público, 01.06.2008
Geralmente sentem-se felizes, gostam da escola e do bairro onde vivem. Mas quase metade (45,8 por cento) das cinco mil crianças inquiridas em sete concelhos da Grande Lisboa dizem que sentem que a família tem dificuldades financeiras.
Apesar de serem raras as que afirmam que não têm comida em casa quando têm fome (2,4 por cento), só uma pequena parcela (12 por cento) costuma fazer uma refeição completa de sopa, prato e fruta ao jantar. O que, segundo um grupo de investigadores, indicia “potenciais problemas ao nível da dieta alimentar”.
Chama-se "Um olhar sobre a pobreza infantil – Análise das condições de vida das crianças" e é um estudo de Amélia Bastos, Graça Leão Fernandes e José Passos, do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa, e de Maria João Malho, do Instituto de Apoio à Criança.»
Público, 01.06.2008
sábado, maio 31, 2008
sexta-feira, maio 30, 2008
"Meditabundando"
O Verdadeiro é Simples
O verdadeiro, o bom, o inigualável é simples e é sempre idêntico a si mesmo, seja qual for a forma sob a qual ocorre. Pelo contrário, o erro, sobre o qual sempre recairá a censura, é de uma extrema diversidade, diferente em si mesmo, em luta não apenas contra o verdadeiro e bom mas também consigo mesmo, sempre em contradição consigo próprio. É por isso que em todas as literaturas as expressões de censura hão-de ser sempre muito mais que as palavras destinadas aos louvores.
Johann Wolfgang von Goethe, in 'Máximas e Reflexões'
Citação daqui
O verdadeiro, o bom, o inigualável é simples e é sempre idêntico a si mesmo, seja qual for a forma sob a qual ocorre. Pelo contrário, o erro, sobre o qual sempre recairá a censura, é de uma extrema diversidade, diferente em si mesmo, em luta não apenas contra o verdadeiro e bom mas também consigo mesmo, sempre em contradição consigo próprio. É por isso que em todas as literaturas as expressões de censura hão-de ser sempre muito mais que as palavras destinadas aos louvores.
Johann Wolfgang von Goethe, in 'Máximas e Reflexões'
Citação daqui
quinta-feira, maio 29, 2008
Há horas assim…
Debate, esta noite, na SIC. Candidatos à liderança no PSD.
Reacção cá em casa: “Valha-nos Deus!”
Reacção cá em casa: “Valha-nos Deus!”
quarta-feira, maio 28, 2008
terça-feira, maio 27, 2008
Viajando o tempo
Às vezes é mesmo preciso que deixemos a distância manifestar-se para descobrirmos que a nossa vida do dia a dia mais não é do que apenas o passar dos próprios dias. Sem mais que isso mesmo. Mesmo que nos julguemos importantes actores da encenação que conhecemos por vida.
segunda-feira, maio 26, 2008
domingo, maio 25, 2008
terça-feira, maio 20, 2008
“HAIKU” [XXV]
Com a mãe doente
As crianças já não brigam –
Seu jantar é frio.
YOSHINO YOSHIKO (n. 1915)
As crianças já não brigam –
Seu jantar é frio.
YOSHINO YOSHIKO (n. 1915)
segunda-feira, maio 19, 2008
domingo, maio 18, 2008
Divagações [2]
Este é o tempo de obrigar o silêncio
A manifestar o seu sentir.
Tenho para mim que apenas
Podemos aprender a escutar
Se o ar que respirarmos
Possuir a serenidade e a paz
Que só os pacientes atentos
Conhecem e podem saborear.
A manifestar o seu sentir.
Tenho para mim que apenas
Podemos aprender a escutar
Se o ar que respirarmos
Possuir a serenidade e a paz
Que só os pacientes atentos
Conhecem e podem saborear.
sexta-feira, maio 16, 2008
“Lounge” [Caldas da Rainha]
Estive lá. Está bem giro. Ambiente calmo, sereno e agradável, como convém a quem gosta de passar um tempo agradável em boa companhia.
Vale a pena aparecer por lá. Vão ver que sabe bem.
E não é por acaso. É que quem está lá a receber-nos é o meu David e o amigo Sérgio, que se embrenharam nesta aventura.
E não é por acaso. É que quem está lá a receber-nos é o meu David e o amigo Sérgio, que se embrenharam nesta aventura.
quarta-feira, maio 14, 2008
terça-feira, maio 13, 2008
Divagações [1]
Quando a voz se levanta
Tornando visível o escondido
O sonho revela-se.
Quando a música se expande
Envolvendo o tempo eterno
O sonho revela-se.
Quando a palavra se sente
Absorvendo o ar que se respira
O sonho revela-se.
Tornando visível o escondido
O sonho revela-se.
Quando a música se expande
Envolvendo o tempo eterno
O sonho revela-se.
Quando a palavra se sente
Absorvendo o ar que se respira
O sonho revela-se.
segunda-feira, maio 12, 2008
domingo, maio 11, 2008
"Meditabundando"
Bem e Corrupção
Vi claramente que todas as coisas que se corrompem são boas: não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, nem se poderiam corromper se não fossem boas. Com efeito, se fossem absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivessem nenhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse. De facto, a corrupção é nociva, e se não diminuísse o bem, não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica - o que não é aceitável - ou todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir. Se existissem e já não pudessem ser alteradas, seriam melhores porque permaneciam incorruptíveis. Que maior monstruosidade do que afirmar que as coisas se tornariam melhores com perder todo o bem?
Por isso, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem são boas. Assim sendo, todas as coisas que existem são boas e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois se fosse substância seria um bem. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível, e nesse caso, se não fosse boa, não se poderia corromper.
Santo Agostinho, in 'Confissões'
Citação daqui
Vi claramente que todas as coisas que se corrompem são boas: não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, nem se poderiam corromper se não fossem boas. Com efeito, se fossem absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivessem nenhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse. De facto, a corrupção é nociva, e se não diminuísse o bem, não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica - o que não é aceitável - ou todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir. Se existissem e já não pudessem ser alteradas, seriam melhores porque permaneciam incorruptíveis. Que maior monstruosidade do que afirmar que as coisas se tornariam melhores com perder todo o bem?
Por isso, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem são boas. Assim sendo, todas as coisas que existem são boas e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois se fosse substância seria um bem. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível, e nesse caso, se não fosse boa, não se poderia corromper.
Santo Agostinho, in 'Confissões'
Citação daqui
quarta-feira, maio 07, 2008
terça-feira, maio 06, 2008
Há histórias que merecem [mesmo] ser contadas
«(…) Há uns anos, e também no Algarve - em Loulé, se bem me lembro -, um jovem casal saiu para uma noite de Carnaval. Deixou no apartamento um bebé e a filha de cinco anos para dar lhe dar o biberão. A meio da noite, a catraia atrapalhou-se com o choro do irmãozito e foi bater à porta dos vizinhos. Estes resolveram o problema do momento. E ajudaram a resolver a causa do problema: de manhã, quando os pais foliões regressaram, os vizinhos deram-lhes uma tareia. É bom saber quando as instituições, como a boa vizinhança, funcionam.»
Ferreira Fernandes
ELE HÁ HISTÓRIAS EDIFICANTES
Diário de Notícias, 06.05.2008
Ferreira Fernandes
ELE HÁ HISTÓRIAS EDIFICANTES
Diário de Notícias, 06.05.2008
segunda-feira, maio 05, 2008
Se calhar, o melhor é pensarmos muito a sério nisto tudo
«(…) Provavelmente, o que de mais grave tem acontecido em Portugal desde 2002 e que mais consequências dramáticas pode ter no futuro é a pauperização da classe média. E um país sem classe média é uma auto-estrada para o banditismo, a violência e a criminalidade. É sobre isto que têm obrigatoriamente de reflectir os governantes e os empresários: os primeiros porque têm conduzido uma política orçamental onde uma das pedras de toque foi o congelamento salarial durante três anos na função pública; os segundos porque as estatísticas mostram que, da riqueza produzida no país, cada vez é menor a fatia que cabe ao factor trabalho e maior a que vai para o factor capital. (…)»
Nicolau Santos
Os graves riscos do empobrecimento da classe média
Expresso, 05.05.2008
Nicolau Santos
Os graves riscos do empobrecimento da classe média
Expresso, 05.05.2008
domingo, maio 04, 2008
As coisas [os minutos de silêncio, por ex.] nos seus devidos lugares
Os meus representantes nesta ilustre casa abandonaram a sala para não se sujeitarem à marosca. Os outros, bem, os outros, esses não me representam mesmo.
Vá lá, nem tudo está perdido: ainda existe gente [Arrastão] que se inquieta e manifesta a sua indignação.
Vá lá, nem tudo está perdido: ainda existe gente [Arrastão] que se inquieta e manifesta a sua indignação.
sábado, maio 03, 2008
Pontos de vista
Parece estar hoje na moda falar-se da sociedade que somos, pela visão que dela têm os jovens.
Basta termos estado atentos a algumas vozes recentes, das quais o Presidente da República se tornou a mais pública e sonora.
Também hoje Manuel Maria Carrilho e João Miranda, nas suas crónicas do Diário de Notícias, nos trazem este assunto à reflexão.
Na verdade, nos dias que correm, o que mais se vê e ouve por aí, é um quase profundo desinteresse pelas coisas da política. Então da partidária, nem se fala. E o que nos devia preocupar mesmo é que esse desinteresse, essa apatia, afinal, apenas tem a ver com uma coisa que nos diz respeito a todos. Tem a ver com o que nos habituámos a chamar de ‘coisa pública’ [a ‘res publica’, diziam ao antigos].
Mas no meio de tudo isto, não acho, como diz o JM, que a sociedade construída pela geração do 25 de Abril, seja uma sociedade falhada. Pode ser uma sociedade complicada, problemática, com mais dúvidas que certezas, pecadora até [como dirão alguns], mas falhada não.
Basta termos estado atentos a algumas vozes recentes, das quais o Presidente da República se tornou a mais pública e sonora.
Também hoje Manuel Maria Carrilho e João Miranda, nas suas crónicas do Diário de Notícias, nos trazem este assunto à reflexão.
Na verdade, nos dias que correm, o que mais se vê e ouve por aí, é um quase profundo desinteresse pelas coisas da política. Então da partidária, nem se fala. E o que nos devia preocupar mesmo é que esse desinteresse, essa apatia, afinal, apenas tem a ver com uma coisa que nos diz respeito a todos. Tem a ver com o que nos habituámos a chamar de ‘coisa pública’ [a ‘res publica’, diziam ao antigos].
Mas no meio de tudo isto, não acho, como diz o JM, que a sociedade construída pela geração do 25 de Abril, seja uma sociedade falhada. Pode ser uma sociedade complicada, problemática, com mais dúvidas que certezas, pecadora até [como dirão alguns], mas falhada não.
Uma simples palavra
Às vezes basta uma simples palavra para deixar passar por nós a nossa memória, a nossa história.
Como aqui. Vale a pena ler, para descobrir a vontade de querer saber mais.
Como aqui. Vale a pena ler, para descobrir a vontade de querer saber mais.
sexta-feira, maio 02, 2008
Tempos de inquietação
«(…) Não, numa história como esta não podemos falar de aumento de penas nem de mais polícia nem vociferar contra "a insegurança". Numa história como esta só podemos olhar para o rosto de Fritzl e tentar decifrar-lhe os sinais, aqueles que deveriam ter alertado toda a gente para o monstro que ali estava, e perceber que não havia maneira, que não há maneira. Nem de perceber - porque se no lugar da filha ainda nos conseguimos projectar, não há forma de pensar como será estar no dele, ser ele - nem de prevenir nem de evitar nem de adivinhar quando e como e porque é que estas coisas acontecem. Nem de encontrar castigos que apazigúem o nosso medo, e a dor e a perda horríveis, tenebrosas, destas vidas. Nenhum sistema penal ou moral nos responde a isto, nada nos protege deste mal. Porque está dentro. Das nossas casas, da nossa família, de tudo o que devia ser seguro e certo. De nós. Porque é humano, tão pavorosamente humano.»
Fernanda Câncio
A HUMANIDADE DO MAL
Diário de Notícias, 02.05.2008
Fernanda Câncio
A HUMANIDADE DO MAL
Diário de Notícias, 02.05.2008
quinta-feira, maio 01, 2008
Relembrar as Maddy’s desaparecidas
Esta noite, as televisões [re]lembraram-nos Madeleine Mccann. Ouvimos mais uma vez a dor daqueles pais. Faz [amanhã] um ano de desaparecimento. Não se pode esquecer, querem dizer-nos. E bem, diga-se.
Mas, curiosamente, não vi nem ouvi nas mesmas televisões falarem, por exemplo, de Alexandre da Silva Gabriel, Cláudia Alexandra Sousa, Rita Monteiro, Rui Pedro Mendonça, Sofia Oliveira. Nem reparei que tivessem também ouvido a dor dos pais destas crianças.
Por mim, ingénuo e crédulo, acredito que um dia os deuses me hão-de explicar porque [como] é que, no meio disto tudo ainda acreditamos ser todos “seus filhos”.
Já agora, para os inquietos da vida: ir aqui e ver.
Mas, curiosamente, não vi nem ouvi nas mesmas televisões falarem, por exemplo, de Alexandre da Silva Gabriel, Cláudia Alexandra Sousa, Rita Monteiro, Rui Pedro Mendonça, Sofia Oliveira. Nem reparei que tivessem também ouvido a dor dos pais destas crianças.
Por mim, ingénuo e crédulo, acredito que um dia os deuses me hão-de explicar porque [como] é que, no meio disto tudo ainda acreditamos ser todos “seus filhos”.
Já agora, para os inquietos da vida: ir aqui e ver.
Subscrever:
Mensagens (Atom)




